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Desculpem meu retorno a Ingmar Bergman, sepultado semana passada na ilha de Faro, no Mar Báltico, onde viveu seus últimos anos — ilha sem dúvida rochosa, escalvada, inóspita, quem sabe a mesma onde locou Através de um Espelho e A Hora do Lobo. Mas homem algum é uma ilha, como disse o poeta John Donne, e de lá, da sua protegida solidão, o cineasta sueco me atingia em cheio. Era um dos meus mais caros interlocutores, e costumo exacerbar minhas admirações.
(Ilha de Faro)
Bergman foi um quebra-cabeças existencial composto por seus personagens. Sentia-se prisioneiro como Agnes, de Gritos e Sussurros, que raras vezes sai da sua cela claustral, o quarto, para errar de madrugada pela casa e anotar lembranças no diário. E depois de abrir a janela, pisca os olhos, que se turvam de lágrimas, enternecidos, ao ver contornos de árvores e folhagens, fiapos de névoa adejante, o rubor da manhã sobre a montanha e o lago distantes.
(Uma foto das três irmãs e da criada no filme Gritos e Sussurros (1972), um Tchékhov transformado em Bergman. A foto é de Liv, Thulin, Harriet e Kari Sylwan, no papel de criada).
Agnes esta sempre sozinha. Vive sozinha em casa com duas irmãs e a criada Ana, a única que se debruça de fato sobre as suas dores. Dores físicas, e também as dores de desencontros e carências, de uma vida apenas pressentida, jamais realizada. Quando menina, sentia-se rejeitada. Sim o problema de Agnes sempre foi o da rejeição. Quando menina vivia sempre calada, em roupas severas, à espreita da mãe que sequer lhe dava a esmola de um olhar em cheio. Tinha ciúmes da irmã Maria, a sonsa, a exuberante, a fútil, com quem a mãe comungava.
De longe, furtiva, Agnes acompanhava a mãe, que tinha ares soberanos, envolta em esvoaçantes vestes brancas, a vagar pelo parque. Agnes a espia por uma vidraça. Sentada, a mãe examina papéis, rabisca. De repente, suspende a vista e percebe a filha. Faz-lhe um gesto: que entre. E Agnes se aproxima, e dentro de Agnes algo se rompe e a inunda de ternura. São as dores da alma. A mão avança para a mãe, toca-lhe o rosto em carícia tímida. Amãe retribui o afago. Nada dizem — elas se compreendem no seu desespero.
Além das dores da consciência, as dores físicas. Agnes, interpretada por Harriet Anderson, sussurra, geme, grita. Ana é quem acode, porque a solidariedade parece desertar das atitudes aristocráticas das irmãs. Talvez as irmãs a temam porque temem a morte, são incapazes de, com esta, travar um jogo de xadrez — e Agnes vai morrer. Agarra-se a Ana que lhe oferece o colo farto. Agarra-se a uns restos de fé, mais forte que a fé do padre seu amigo que irá encomendar-lhe o corpo e apostrofar o céu impiedoso.
(Três irmãs servem de apoio para o diretor dissecar a psique humana envolvendo as relações familiares). 
Do leito em que se revolve como um verme, Agnes pressente a chegada do médico. E se recompõe para ele. Sua fisionomia adquire uma serenidade de estátua. O médico de barba negra entra, se cumprimentam, ele pousa a maleta e retira o estetoscópio —longo tubo pelo qual lhe ouve o pulsar das artérias. Recolhe o tubo e espalma, então, a mão sobre o ventre de Agnes — aquela mão grande e macia de homem, que talvez fosse um bálsamo à doença terminal de Agnes, se lhe percorresse o corpo em funda carícia.
Segue-se a grandiosa cena que somente a boa prosa de ficção e o bom cinema criam, sem truques verbais de tímidos amadores, sem aquela alquimia falsa dos que, por não exprimir emoções, exploram vãs palavras. Agnes esboça um riso que lhe encova as maçãs do rosto e, de olhos fechados, pousa uma mão sobre a mão do médico que procura sentir-lhe o ventre.
Pronto: está estabelecido um laço. Está esboçado um conluio, está dito num gesto o que lábios não ousam confessar. O austero médico ri para dentro, retira delicadamente a mão e afaga, com dois ou três tapas tão suaves quanto uma débil maré morna, o rosto sofrido de Agnes. Nenhum dos dois fala. Evitam até mesmo olhares diretos. O médico retira-se. Agnes está de novo solitária, como sempre esteve — e assim continuará, mesmo na condição de morta, porque a morte não a liberta do peso de uma vida que não se comunicou, que não foi fertilizada pelo amor em suas variadas gradações de companheirismo, simpatia, interesses afins, amizade, atividades compartilhados, afeto, solidariedade — e, por fim, o que entendemos vulgarmente por amor romântico e amor carnal. 
Agnes ensina que toda morte é solitária e heróica. Como a do cavaleiro medieval que, de regresso das Cruzadas, joga xadrez com a Morte, em O Sétimo Selo, na tentativa de encompridar os dias. É que lhe falta resposta a uma pergunta sobre a permanente ausência da divindade e o vazio que tal ausência transmite. Receberá, no entanto o xeque-mate sem saber se pecou por falta de uma fé robusta, ou se foi um caniço ao vento.
Leio nos jornais que o enterro de Bergman em Faro foi privado: poucas pessoas da família, poucos amigos. Mas houve engano: ele libertou da memória o peso de muitas vidas a que deu alento e que refletiam seus piores tormentos e indagações. Elas estavam lá, acompanhando o trespasse de quem usou o cinema, como outros usam a literatura, para criar gente e episódios extremados — não em estéreis laboratórios de palavras, mas tirados das próprias entranhas, e ainda frescos, a gotejar sangue, a desprender massa encefálica.
(A Tarde, Salvador, 25.98.2007)
FONTE: Jornal de Contos - crônicas escolhidas
Sites do autor: Antigo Jornal de Contos e Jornal de Contos
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Autor(a): Hélio Pólvora
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