
Est� p�gina foi escolhida pelo MeioDia.Net, como uma da melhores do mundo.
Selo - Links & Sites
Sele��o dos melhores sites do Brasil!

No dia 17 do corrente mês, completei cinquenta anos de vida. Uma longa existência para quem só depois de muito tempo conseguiu equilibrar-se nas pernas trôpegas e frágeis.
Cinquenta anos de Vitória do Mearim, de Rua Major Cutrim, com esta sede estranha, profunda e vasta, que meu rio não conseguiu saciar. Mas, não fui buscar em fontes distantes as águas de que necessitava para saciar minha vida interior. Preferi ficar por aqui mesmo, ansiando por encontrá-la na pureza dos sonhos bons; na pureza desses sonhos que minha alma procurou mantê-los incólumes para que não passassem como os ventos das saudades benfazejas...
(Praça da Matriz, Vitória do Mearim-MA)
Vivendo todos os instantes da minha cidade, descobri os motivos verdadeiros que me fizeram ficar por aqui: eu sempre tive sede da minha terra. Sem ela eu teria sucumbido, não teria chegado são e salvo nas asas dos meus sonhos ao oásis de mim mesmo.
Minha terra foi o motivo da minha inspiração, do meu feitiço, da minha inspiração e das minhas insatisfações, das minhas alegrias e dos meus pesares, dos meus encantos e das minhas desilusões. Minha terra é a paixão maior da minha vida. Às vezes ela me deixa triste. Mas quem ama não pode imaginar-se apenas feliz, como nos contos.
Passei cinquenta anos em Vitória do Mearim sem partir. Quando quis, ela me impôs que eu ficasse. E fiquei. Era meu destino ficar. Por conseguinte, não tive outros rios, não bebi de outras águas, não andei por outras ruas, não conheci outras pessoas e minhas paisagens foram se repetindo sempre na passagem dos dias. E elas foram sempre as mesmas.
Minha terra foi mais forte que minha vontade. Ou melhor, eu não quis contrariá-la para não desobedecer também às íntimas determinações da minha alma, dos meus apegos e das minhas paixões. Estas condições sempre me deixaram em conflito às poucas e rápidas vezes que tive de partir. Ai, então, se eu sentia felicidade de poder descobrir outros universos, da mesma forma sentia a saudade me apertando o peito e eu voltava, já sentindo no coração a mesma felicidade de criança que se vê diante de um bazar. Então, prometi a mim mesmo nunca mais partir para não sofrer. E nunca mais parti.
(Pororoca do rio Mearim)
Na verdade, minha cidade fez valer sua vontade: cortou para sempre minhas asas para que eu não voasse além dos meus próprios limites.
Como homem que vive num mundo de eternas competições, tenho certeza que não fui prático. Mas não me arrependo por isso. Também, não me sujaram as mãos o ouro que outras mãos garimparam com sacrifício. Entendo que é preferível que se viva na pobreza com dignidade, do que possuirmos grandezas e vivermos na desonra, com uma mácula tão imensa que nenhuma água consegue lavar. Nunca quis isto para minha vida. Nunca desejei viver dos sonhos alheios. Prefiro possuir estrelas. Nelas encontro meu tesouro. É verdade que são tesouros de sonhos, mas que bem poucos têm o privilégio de possuir, e, por isso, são secos, destituídos dos sentimentos que distinguem a raça humana das demais.
(Rio Mearim, Vitória do Mearim-MA)
Entre as ocupações que rendem lucro, que garantem segurança, não abracei nenhuma. Escolhi exatamente aquela que nada pôde me oferecer: a poesia, ocupação difícil e amarga, em desuso, que o mundo deixou de admirar passando a cultuar o transitório, as coisas que não têm valor. Poesia, como dizem, é coisa do passado. Coisa do passado, mas que todos citam quando querem parecer cultos ou sensíveis.
Hoje, existem aqueles que admiram o corpo, que o divinizam. O corpo passou a ser a alma dos homens e das mulheres vazias. Valoriza-se a companhia dos cães, que dormem ao lado de suas senhoras, na mesma cama, que são tosquiados em lojas caríssimas, onde são perfumados e enfeitados como os humanos, enquanto tantas crianças existem por ai, que passam fome, que necessitam de famílias que lhes possam dar o aconchego da amizade, os benefícios do carinho. E fala-se da marginalidade como se ela fosse uma peste de outro planeta, uma miséria que não fosse obra de nós mesmo, das nossas atitudes, dos nossos gestos. É por isso que odeio as cidades grandes, onde não existe reciprocidade de afetos e a peste da solidão não tem o remédio da presença do bom vizinho, das amizades que se solidificam com a troca da cuia de sal por cima das cercas dos quintais.
(Rio Mearim, Vitória do Mearim-MA)
Cidades grandes sempre me torturaram. Elas tornam os seres insensíveis, endurecem-lhes os corações, tornando-os personalistas, pragmáticos, receosos, depressivos, solitários. Cidade grande nunca propicia felicidade por completo. Nas cidades grandes, existem pessoas que se fecham para o mundo, que não dividem; que não têm vizinhos, e se os têm, não os conhecem, e não sabem o valor dos sentimentos verdadeiramente grandiosos. Cidades onde as pessoas ainda não descobriram que assim como as pontes, a solidariedade, a compreensão e o amor ligam margens opostas, tornando-as bem maiores do que se possam imaginar.
Foi por isto que resolvi ficar e não partir. E aqui, na minha pequena cidade, aprendi a ser o pouco que sou. Aqui, por exemplo, aprendi que a palavra tem o brilho do ouro, que seduz, e o poder da bomba, que destrói. Saber usá-la para construir, entretanto, era função dos poetas. E eu quis ser poeta.
Versos, versos, versos, que me deram felicidades infinitas, mas que roubaram minhas noites, que me torturaram e me fizeram viver no silêncio, na sombra, enquanto todos dormiam. Coisa de poeta, bem parecida com a função do padeiro vista pelo escritor maranhense Humberto de Campos: enquanto todos dormem, o padeiro trabalha incansavelmente, amassa o trigo generoso no cilindro de ferro, tempera-o com o suor do próprio rosto para fabricar o pão abençoado que irá nos alimentar no amanhecer de cada dia. Não seria assim a vida dos poetas?
Poeta é um sonhador, porque acredita que um dia conseguirá transformar o mundo, que acabará com os preconceitos, com a miséria, com as injustiças, que poderá decretar que todo amor será eterno, que toda paixão durará a vida inteira, com a mesma chama, com a mesma intensidade.
Poeta é um sonhador!
Nesta condição, acredito que deixarei para a posteridade uma enorme provisão de sonhos. Sonhos de transformações humanas pelo entendimento, do fim da violência, da fome, do preconceito, da discriminação, do analfabetismo, da miséria, da corrupção política, da marginalidade. Mas isto é muito pouco, e eu queria mais, muito mais. Eu queria, por exemplo, cantar a minha terra com a simplicidade e ternura de criança, como o fez Tio Zeca quando escreveu o Hino Oficial de Vitória; queria encontrar o pote de ouro que está escondido ao pé do arco-íris para distribuir sua riqueza entre os irmãos vitorienses que passam fome e acabar de vez com a carga fatigante de angústia e inconformismo que carrego comigo, que me persegue constantemente.
Minha alma esteve moldada ao inconformismo de tudo, nestes tempos. E assim vou vivendo, como bem quer a minha cidade que eu viva. Cidade que aprendi a amar como bem poucos, sem medir consequências. Amando e sofrendo, amando e sofrendo, mas vivendo sem evasivas, como vivem os mentirosos e falsos. (Rio Mearim, Vitória do Mearim-MA)
Para ler outros escritos do autor no Site Lima Coelho, no Menu "categorias" clique em Índice por Autor(a), clique em Arimatea Coelho.
© Lima Coelho. Todos os Direitos Reservados