Em vez de anjo, árvore
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Esqueci do pé de azeitona preta. Verdade, verdade, língua roxa de fazer rodo com os dentes 
Todo mundo deveria ser obrigado a ter quintal. E nele, haver pelo menos duas goiabeiras (uma da goiaba vermelha e outra do miolo branco). Ter ainda dois coqueiros, um pé de carambola, duas mangueiras (rosa e jasmim), um pé de sapoti, um pé de macaúba, quatro cerigueleiras, um pé de cajarana com sal e madura, um pé de limão, um pé de cabaça (porque são bonitas e estranhas aquelas marias redondas verdes), uma romã e uma jaqueira.
Sim, até uma jaqueira. Tronco frondoso, musculoso de sustentar crias tão medonhas e penduradas. Cheirosa quando o amarelo vai se pintando, amolecendo e pedindo pra ser tirada. Antes que se espatife e esparrame. Lembro que depois da jaca, cortada ao meio e leitosa, ainda vinham os caroços. Cozinhá-los e tomar com café. Humm !! Que nem fruta-pão de manhã.

Esqueci (e não poderia) do pé de azeitona preta. Verdade, verdade, língua roxa de fazer rodo com os dentes. De chupá-las até dá gastura e depois decretar guerra de mentirinha e apanhar da mãe por causa da “noda” na blusa branca da primeira comunhão. E, se aqui vingasse, uma jabuticabeira mineira de saudade.
Faltaram os três pés de mamoeiros, os cachos de banana prata e a gulosidade dos sanhaçus. Briga de menino e passarim sempre foi de brincadeira. Mesmo, que quando miúdos, adorasse vê-los em gaiolas nos pregos do alpendre. Não por maldade intima, mas para tê-los bem pertinho.
Mas hoje não há tempo pra gaiolas. Em vez delas, árvores e rios. E todo dia, passarim que for, passará por lá. No tempo da manga, nos fins de ano da chuva do caju, a comer o milho que nasceu por acaso onde se lavava os pratos. Sibites de flor, beija-flor de açúcar, bem-te-vi de insetos, periquitos, galos campinas, sabiás...

Tenho a impressão que todo menino ou menina que teve uma árvore foi mais feliz e virou um grande mais ventilado. É fresco sem ser flaite. Há palavras doces na boca e desconfio da boa influência das pitombas, das ceriguelas inchadas de vermelho e até dos tamarindos.
Toda vida que me perguntavam o que queria ser quando crescesse, respondia que uma árvore. Uma árvore? Mas ser um pé de pau? É sim, retrucava. Todo bicho gosta dela, faz sombra, faz ninho. E as galinhas, às 5 e meia, vêm pra atravessar a noite. Quem quer cantarolar de galo, sobe no olho da goiabeira e vai aprendendo a fazer amanhecer.
Ficava encaramiolando, deve ser um circo ser uma árvore. Balançar menino em pneu, ser trapézio de danado, trocar de folha e botar cor. Talvez escolhesse ser um flamboyant, chover vermelho quando estivesse saindo da meninice e quisesse impressionar Astrides – a primeira paixonite de corar e gaguejar.
Não falei dos pés de mastruz e as pernas pisadas dos pintos, do cheiro do manjericão no terreiro, do perfume da alfavaca, do pé de erva cidreira, do doce do capim santo, das folhinhas de piper do hortelã, do agrião no dente cariado, do chá-de-avô do pé de colônia... Fica pra outra sombra.
Em vez de anjo da guarda, uma árvore pra cada. Porque as árvores e os passarins nos amanhecem.
21.01.2012FONTE: Das Antigas - O POVO
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