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(Leque, Paulo Ramos)
Essa ninguém me contou eu vi, como quem vê um filme de Almodovar, como quem vê Amarelo Manga na versão maranhense, tendo como cenário o submundo sujo do Mercado Central.
Eu não estava lá por acaso, vagava em busca de material humano, de novos temas, de novidade, de gente, porque me alimento de gente, porque tenho sede de gente e diluo gente em imaginação para transformar em histórias...
E eis que me aparece aquela que seria a minha personagem principal.
Eu estava sentada, ela chegou às pressas antes do pôr-do-sol, ela vinha com passos de quem tem a intenção de olhar amigos, com os olhos de quem busca novos amores, com gestos de quem sonha, com um sorriso preso nos lábios, inventando um mundo paralelo entre camarão seco, juçara e a poesia suja, como o chão sujo pisado de frutas, com cheiro de podre, chorume.
Ela sentou-se como que pedindo licença numa mesa vazia, quase não conseguia olhar para o lado. Alta, esguia, com uma palidez mórbida e nenhum batom na boca. Destacava-se dos demais, era uma rainha no meio dos encardidos.
Ela pediu uma cerveja com o brilho nos olhos de quem faz coisa errada; quem apurasse um pouco mais a vista como eu o fiz via a onda de calor percorrendo o corpo dela, era como se ela estivesse sendo possuída pela cerveja gelada, ao som de uma música de gosto duvidoso...
A sede da mulher pálida, de lábios que aprisionam o sorriso, a fez beber três garrafas, como se fossem de água mineral. Estava visivelmente desabrochada, decadence avec elegance. Foi ao banheiro fétido, acompanhada por olhares, apalpada por ordinários; voltou com batom nos lábios, e a blusa desabotoada, de forma que dava para ver a dobra dos seios. Ela sentou-se e pediu mais uma cerveja, cruzou as pernas, pediu um cigarro para o mal encarado da mesa ao lado e tragou, como se tragasse a vida, como se tragasse a alma de todos ao seu redor, prendeu a fumaça por muito tempo e depois soltou-a sorrindo para o ar um sorriso desconexo.
Ela carregava uma grande bolsa, remexeu por uns minutos como se não soubesse o que procurava. O gesto atiçou minha curiosidade, assim como o fato de a cerveja tê-la moldado em outra, outra mascara, outro corpo. No segundo seguinte, ela tirou um leque antigo da bolsa mágica, como mágica é toda bolsa de mulher. Habilmente movimentava o acessório, o farfalhar do leque invadiu a feira, um barulho insuportável de asas de pássaros percorreu o ambiente, levei a mão aos ouvidos, nesse instante percebi que os outros personagens continuam como se nada estivesse acontecendo. Será que era só eu estava escutando?
Quando a mulher, que antes era pálida, que antes tinha lábios que prendiam o sorriso, abanava-se, saía do leque luzes e cores, brilho e encanto...essa aura profana invadia narinas, boca e poros, eu via incrédula, e só eu via, aquela criatura possuída, transformada, caras e bocas, desejos que não eram mais seus, ela gargalha alto, mordia os lábios, tesão e promessa correspondendo aos olhares que lhe devoravam. Ela sentava em vários colos e beijada indiscriminadamente. Quem olhava, e via e enxergava como eu, sabia que não era só a bebida, era também aquele leque. Leque mágico, tirado da bolsa mágica. Fixando a vista eu via ao redor dela uma silhueta, de outra mulher que a envolvia. Eu que tinha parado de beber no primeiro copo para contemplar sóbria o espetáculo, escutei um sussurro no ouvido: “Ela não está só, é a cigana, a moça-bonita, a pomba gira”. Virei-me, não vi ninguém. Mordi os lábios, fiquei taquicardia. Voltei a atenção para a mesa, a mulher não estava mais lá, fui pagar a conta, estava sem chão.
A mulher me deu o troco dizendo: “A mulher daquela mesa ali – apontou pra mesa vazia – deixou isso aqui para você” . Recebi incrédula o leque das mãos da garçonete.
O leque ainda está comigo, porém não tive coragem de usá-lo, nem de jogar fora, eu culpo o medo, mas é mais certo que seja porque ainda não tenha ingerido a quantidade necessária de álcool para dar prosseguimento a mais esta lenda urbana.
FONTE: http://palavrasurrada.blogspot.com.br/2010/09/lendas-urbanas.html
Anne Glauce Freire é jornalista cultural e ... mãe, poeta, sonhadora, comunicadora, apaixonada por rádio e tv, contempladora, flaneur, amante das palavras...
Blog da autora: palavra surrada - a ideia usa a palavra, quase desgasta, e faz dela um texto de palavras surradas.
http://palavrasurrada.blogspot.com
Contato: anneglauce.freire@gmail.com
O Site Lima Coelho já publicou de Anne Glauce Freire:
1. Dejavu (12.08.2008)
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=1789
2. Os sabores da infância (18.08.2008)
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=1813
3. A teoria dos sapatos (30.09.2008)
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=1992
[4 e 5]. 2 crônicas de Anne Glauce Freire (24.11.2008)
- Sociedade dos poetas vivos
- Eu quero morar numa loja de decoração da Holandeses
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=2199
6. Felicidade de comercial de margarina + E por falar em saudade... (27.02.2009)
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7. "Minha loucura tem trilha sonora" (Noporn) (10.06.2009)
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8. Felicidade: vamos nos permitir! (11.10.2009
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9. Causinhos + Falas roubadas... (28.05.2011)
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