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Fátima Oliveira
Lô e Bernardo estavam numa chaise longue de onde se via o mar, o vai e vem das ondas espumantes e aquele barulho que dá sono... Ela deitada nas pernas dele, que acariciava seus cabelos, jogavam conversa fora e apreciavam o vôo das gaivotas na praia. Ela chegou à ilha um pouco antes do meio-dia e do aeroporto foram direto pra Base de Dona Diquinha, lá no Diamante, onde comeram cuxá com peixe frito, iguarias que Lô aprecia, tanto quanto comer em “Bases”, segundo ela onde ainda se faz a comida do litoral maranhense de verdade!... 
[(Vôo das gaivotas na Praia do Olho d'Água, São Luís, MA (Fotos de Biné Morais)]
(Praia do Olho d'Água, São Luís, MA)
– Bernardo, meu amor, espie só: a tal de "MP dos médicos" (Medida Provisória 568/2012) tem de estar errada, meu nego! Mas precisam lutar para que o governo reconheça o erro! Olhe o exemplo das feministas na MP 557. É ir pra cima! As feministas foram com gosto de gás. Não deixarm pedra sobre pedra. O Padilha parecia invencível e assim se comportava, mas deu com os burros na lama. Ficou atoladinho, atoladinho... Até hoje não disse como o nascituro foi parar na MP 557, mas isso é o de menos pra nós. Não deveria ser pra Dilma, mas deixe pra lá...
– Sei! Mas você pode dar uma cochichada no ouvido da mulher, hein? Certo que estou quase aposentando, originalmente sou médico concursado do antigo INAMPS, mas com o golpe dessa tal de MP a coisa ficou feia mesmo...
–...
– Entendeu o que falei, Lô? Todo mundo fala que você é unha e carne com a mulher...
– Vou fazer de conta que não ouvi... Entendeu o que quero dizer?
– ...
– Pois bem, não estou dando lugar pra esse tipo de conversa. Mas adianto-lhe que nunca vi um governo se enredar tanto em bobices como o de Dilma! Eita povo sem critério pra certas coisas. Não é maldade, que é o que lhes falta, mas falta de de... digamos, tirocínio mesmo. Ela precisa passar a régua mais amiúde nessa gente... Com amigos atabalhoados assim, quem precisa de inimigo? Me diga! Erro não é álibi; erro é erro, oxê!
– ...
– Miriam Belchior, a ministra do Planejamento, que se explique direitim e bonitim... Ela é o Padilha da MP 568. Iscritim o Padilha na MP 557. Ela não sabe de nada, não viu nada e deixa a presidenta no fogaréu das fogueiras de São João e de São Pedro! Colocam a presidenta na fogueira como se fosse batata assando! É fazer barulho. Ir pra cima da ministra. Ela que dê seus pulos. Num assunto assim Jandira Feghali é o baluarte. Não duvide.
– Entendi Lô. Estamos lutando. Médicos do Brasil inteiro estão mobilizados. Estou muito atarefado. Tô na briga, com firmeza. Gostaria de ter ido passar o Dia dos Namorados na Matinha de Dona Lô, mas não deu! Tudo por causa da maldita MP!
– Eu sei. Estou qui, não?
– É, mas vai perder a sardinhada da Festa Portuguesa de Tonico, que tanto gosta. Sei que queria ficar lá, levar Estela para entregar-lhe pessoalmente a mesa de Donana...
Mesa de Donana na festa portuguesa de Tonico.

– É verdade! Mas ela não é quadrada. Vai se virar lá com Cesinha, que sabe bem como é a festa, pois foi minha companhia nela por muitos anos... Deixe pra lá...
– Como está vendo o caso do casal Yoki?
– Assustada. E com pena. Era um casal jovem, com uma filha pra criar... Mas só Elize sabe os porquês do que fez e como fez. O que vai n’alma de uma mulher que se virou nos trinta para ter uma família diante da ameaça de perdê-la, só Freud explica porque uma pessoa assim arrisca o muito do que possuía pelo nada da prisão. Não arrisca, conscientemente, porque age de modo impetuoso e impensado, a tal da violenta emoção, sob frontais sem censura. Você é médico, sabe bem melhor do que eu o que são os frontais sem censura...
– ...
– Um crime midático por excelência, pelos lances da vida privada do casal, sobretudo e pela posição social, a riqueza do falecido. Ainda vai correr muita água debaixo da ponte. Ela vai ser condenada, tem de pagar pelo crime cometido, mas até lá muito podre vai deliciar a mídia. O advogado da família do morto quer condená-la antecipadamente. Busca a condenação pública sem dó. E o dela, corre atrás de atenuantes, coisa que há, aos montes, desde ter confessado voluntariamente o crime... Briga de cachorro grande... É isso!

(19 de maio de 2012 - Família no elevador chegando em casa: Marcos, Elize, a filha do casal e a babá)
– O que eu tinha de aprender para fazer a minha parte em defesa do Planeta, já aprendi e estou fazendo... A Matinha de Dona Lô hoje em dia é mais que um santuário ecológico... A minha criação de gado pé-duro, ou melhor, o meu zoológico de gado pé-duro, é uma demonstração de fé, não acha? Sem falar em meus jumentinhos abandonados, que vão para mais de cem... Zé Vaqueiro reclama que nem um condenando e vive a perguntar o que vou fazer com aquela jumentaiada que só cresce... rsrsrsrs... e aumentando despesa. Digo-lhe sempre que capim é de graça, que deixe meus jeguinhos quietos... Quase ninguém quer mais saber de jumentos, não é? Pouca gente mesmo, como Gilles Lapouge, que escreveu recentemente "Ao jegue, com carinho", no Estadão. Se depender de mim, nem o pé-duro e nem os jegues serão extintos, nem que eu gaste “meus cofos e cofos de dinheiro” da família Tropeiro, que o povo não se cansa de dizer que eu tenho... rsrsrsrsr...
Suas observações foram interrompidas pela música suave de um violino tocando Capri C’est Fini!, de Hervé Vilard, que ela lembra de ter dito a Bernardo que adorava... Ainda cantaram, com vozes maviosas, A Majestade o Sabiá...
– Humhumhum... cheirinho booooom... Caldeirada de camarão é uma iguaria sublime! Comi muito na Base do Germano, quando era lá na Macaúba... Passei o exílio todo babando de vontade de comer caldeirada lá naquele pé sujo que tanto espantou Tancredo... A comida era limpa, de primeira, mas na rua havia esgoto a céu aberto... Quem fez a caldeirada?



São Luís, 12 de junho de 2012FONTE: Tá lubrinando - escritos da Chapada do Arapari
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