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A Academia Sueca, que confere o prêmio, justificou a escolha do escritor dizendo que "por meio de suas imagens condensadas e translúcidas, ele nos dá novo acesso à realidade".
Aos 80 anos de idade, Tranströmer é o 108º agraciado com o prestigioso prêmio, concedido no ano passado ao escritor peruano Mario Vargas Llosa.
O prêmio de quase US$ 1,5 milhão de dólares é concedido apenas a escritores vivos.
Formado em psicologia, Tranströmer sofreu um derrame em 1990, o que afetou sua fala.
'Místico'
As obras de Tranströmer foram traduzidas em 50 idiomas, entre eles, o português (de Portugal) e o espanhol.
Seus poemas foram descritos pela editora inglesa Publishers Weekly como "místicos, versáteis e tristes".
Há anos, tem havido especulações de que o nome do poeta estaria sendo cogitado para levar o prêmio.
Tranströmer é o oitavo europeu agraciado com um Nobel de Literatura nos últimos dez anos e o primeiro sueco a recebê-lo desde 1974, quando os escritores Eyvind Johnson e Harry Martinson dividiram a honraria.
Nascido em abril de 1931, em Estocolmo, Tranströmer formou-se em psicologia em 1956 e mais tarde trabalhou em uma instituição para jovens infratores.
Sua primeira coletânea de poemas, intitulada Dezessete Poemas, (em tradução literal) foi publicada quando ele tinha 23 anos.
Em 1966, o poeta ganhou o prêmio Bellman, um entre muitos que viria a receber no decorrer de sua vida.
Em 2003, um dos seus poemas foi lido durante uma cerimônia em memória de Anna Lindh, a ministra sueca das Relações Exteriores, que morreu assassinada.
FONTE: BBC 4 poemas de Tomas Tranströmer
HISTÓRIAS DE MARINHEIROS
Tomas Tranströmer
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
(1954)
A ÁRVORE E A NUVEM
Tomas Tranströmer
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
(1962)
DESDE A MONTANHA
Tomas Tranströmer
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.(1962)
PÁSSAROS MATINAIS
Tomas Tranströmer
Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
(1966)
Tomas Tranströmer ou a fascinação da inanidade
Ler Tomas Tranströmer é uma experiência única e maravilhosa. A sua obra, embora pequena, alberga uma potência fenomenal. Por isso se encontra traduzida em mais de 30 línguas; por isso Tranströmer é, desde há anos, também um dos principais canditatos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura. Infelizmente ainda não o ganhou e talvez nunca o venha a ganhar.
Embora Tranströmer nunca tenha escrito textos teóricos acerca da sua poesia, podemos no entanto ver nestas palavras uma espécie de poema programático, ou seja, uma metapoética. Neste poema, como acabamos de ver, defende-se uma poesia do termo singelo e conciso, da pureza inicial, de uma linguagem para lá das palavras “muda”, muito próxima do Budismo Zen. O que interessa aqui não são as palavras em si, ou uma mensagem inteligível, mas sim a linguagem que advém dessas palavras e que se libertou de todos os condicionalismos usurários que elas lhe pudessem impor. Quer dizer as palavras despiram-se dos seus significados individuais para se transfigurarem num corpo unificado e vivo, ou seja, numa linguagem absoluta, que nos deixa compreender tudo para além de todo o entendimento.
Esta poesia tem como peculiaridade o momento. Na maior parte dos poemas de Tranströmer, deparamos com a evocação de um momento, vivido ou imaginado, que nos é transmitido quase fotograficamente. No entanto este momento, que lhe provocou a necessidade de poetar, ou seja, que ele procurou fixar em palavras, e que à primeira vista pode parecer uma mimésis da realidade circundante, já nada tem a ver com aquilo que o poeta em determinado momento observou, viveu, ou mesmo sonhou. Ao ser integrado no corpo do poema por meio da palavra poética, o momento sofreu uma transmutação: ele tornou-se numa realidade autónoma, ele tornou-se como António Ramos Rosa diz num dos seus ensaios: “presença da ausência”. Por isso o poema transcende a fugacidade do momento, dando-lhe uma continuidade que o transgride e ultrapassa a simples experiência física e sensorial:
Como podemos ver, esta poesia é uma evocação do momento, único e irrepetível. O mundo natural, com todos os seus fenómenos inerentes, ao tornar-se palavra, torna-se numa nova realidade, uma realidade que se pode encontrar, por vezes, muito perto do delírio surrealista. Esta nova realidade já nada tem a ver com os fenómenos apreendidos pelo eu lírico. Dentro do poema ela transcende-se até à irracionalidade. Em torno de uma simples imagem, abrem-se ao leitor portas e portas: esta linguagem não precisa de uma interpretação, ela é a voz do silêncio, a voz do vazio total, do vazio do sujeito e das coisas, ponto de saída e ponto de encontro. Por isso a linguagem poética de Tranströmer aproxima-se bastante dos princípios do Budismo Zen. Vejamos a primeira quadra do poema “Adernagem da noite para o dia”:
FONTE: Agulha - Revista de Cultura
Tranströmer "não acreditava" que ganharia Nobel de Literatura
Morte e natureza são temas da poesia de Tomas Tranströmer
Luís Costa (Portugal, 1964). Poeta e ensaísta. Inédito em livro. A tradução do poema de Tomas Tranströmer, feita por Luís Costa, tomou por base a versão alemã, realizada por Hans Grössel e incluída em Der Mond und die Eiszeit (1992), antologia do poeta sueco. Contacto: l.costa@web.de. Página ilustrada com obras do artista Julio (Portugal |
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