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Velho Piancó: dádiva desperdiçada

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(Rio Piancó)


Os egípcios costumam dizer que o Nilo é uma dádiva dos deuses. Igualmente podemos dizer que o Piancó é uma dádiva do nosso Deus. O que seria de nós pombalenses sem este Rio? Ao longo das suas ribeirinhas dezenas de cidades floresceram a partir da ocupação das terras sertanejas pelos colonizadores portugueses A sua bacia recebe pouquíssimas águas de outros Estados. Do vizinho Estado de Pernambuco não recebe sequer uma gota d’água, pois, os limites fronteiriços deste Estado com a Paraíba são determinados por divisões de bacias.
Do Estado do Ceará recebe um filete d’água que desce preguiçosamente da serra do Cascavel, que, mal dá para repor o espelho d’água de um pequeno barreiro. O Estado do Rio Grande do Norte, ao contrário, é receptor de boa parte dos nove bilhões de metros cúbicos d’águas que anualmente caem sobre o solo paraibano, a cada estação invernosa, quando regular, segundo o magnífico e sábio professor Xavier.
Isso significa dizer que, da pouca água que dispomos, generosamente, dividimos com o vizinho Estado situado ao norte da nossa fronteira. O saudoso amigo, o jornalista Adalberto Barreto costumava dizer que, se a água armazenada, em razão do barramento do sistema Coremas/Mãe D’água, não for usada pelos irrigantes da região, com certeza, a grande barragem estará fadada a servir de Caixa D’água, para abastecer as atividades irrigadas no Estado vizinho.
Pelo visto, a profecia de Adalberto concretizou-se. Nada impede que os vizinhos do norte usem a nossa água para fins diversos. Diga-se, de passagem, com justa razão, que o código das águas é bem claro, quando diz: a água, independente da sua nascente ou origem pertence àqueles que estiverem a usá-la para fins sociais ou produtivos. Portanto nada a reclamar dos irmãos do norte.
Para nós, o Piancó é um rio genuinamente paraibano que abastece grande parte da população sertaneja. Por outro lado, para os norteriograndeses o Piancó faz parte de um complexo hídrico interestadual que adentra ao seu território, cujas águas mitigam a cede de boa parte da população local, ainda serve para fazer funcionar complexos sistemas de irrigação nas planícies aluvionais do Vale do Açu.


Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Conceição, PB (Sertão do Piancó, PB)

Matriz de Jurema-PB

Menos mal porque, de certo modo, a água paraibana cedida àquele estado contribuiu para a elevação do Rio Grande do Norte a condição de segunda potencia do agronegócio da fruticultura tropical em todo Brasil. Tem nada não, poderemos recuperar a água cedida ao vizinho estado, logo após a conclusão do projeto da transposição. Antes tarde do que nunca.
Retomando a conversa inicial, é lícito dizer que, bem ou mal devemos muito ao Piancó. A história registra que desde os primeiros momentos da colonização do nosso município, os pioneiros construíram as primeiras casas à sua margem direita, posto que a margem esquerda, com certeza era território exclusivo das tribos Tapuias que não aceitavam a presença do homem branco na região. Foi a partir desse pequeno núcleo populacional que nasceu o primeiro vilarejo, que ao longo do tempo, cresceu, floresceu, tornou-se a majestosa e acolhedora cidade que é hoje.
Há um provérbio de origem desconhecida, que diz: “se o boi soubesse da força que tem não se subjugaria ao homem”. Da mesma forma é oportuno dizer: se o povo da minha terra soubesse da riqueza que tem, com certeza, seria menos pobre do que é. Há vários testemunhos que podem confirmar o que estou a falar. A exemplo vale lembrar que num tempo não muito distante, precisamente lá pelos idos dos anos setenta, a economia de Pombal experimentou um ciclo de crescimento que há muito não acontecia, claro, depois da falência da economia algodoeira.

Rio Piancó, na altura do Sitio Barrenta e Antas, em Boa Ventura - PB (Foto de Amadeu Neto).


O motivo maior para este momento foi a explosão da produção da banana irrigada destinada, na sua maior parte, para atender a demanda da indústria doceira local. Havia na cidade algumas dezenas de fabrica de doces, entre grandes e pequenas, cuja produção destinava-se a vários estados da região, alem do mercado interno. Foi mais um breve momento de esplendor da economia da terrinha. Eu mesmo cheguei acreditar que um novo ciclo econômico estava a se projetar e que, com certeza, o município iria retomar a posição que historicamente ocupou no cenário econômico estadual. Era questão de tempo, assim pensava eu.
Infelizmente, o meu fascínio, ante ao quadro de prosperidade observado nos anos setenta, durou muito pouco. A produção de doce cresceu exageradamente, sem nenhum planejamento de ajuste de mercado. Isso porque o gerenciamento das unidades produtivas deixava muito a desejar. Ademais, não obstante o produto ser de boa qualidade, não foi possível preservar os mercados conquistados ao longo do tempo. As empresas competidoras foram mais eficientes na disputa dos mercados.
Em razão da perda de mercados houve quebradeiras em série. O reflexo foi a depreciação dos preços da banana, o que desestimulou os produtores continuarem na atividade. Com a queda da produção o setor deixou de gerar renda. Sem renda não houve mais investimentos na atividade. Sem investimentos caíram os níveis de empregos. Essa é a lógica trivial da relação investimento/emprego, conforme os princípios elementares da teoria econômica.
As coisas não pararam por aí. Com a redução da produção, a circulação do dinheiro no mercado reduziu-se a uma expressão mínima. No caso em questão, o comércio ressentiu-se porque havia pouca circulação de dinheiro no mercado. Como resposta, este setor reduziu suas atividades que, por sua vez resultou em menos empregos, por conseguinte, mais uma vez, menos dinheiros a circular. Foi esta ciranda perversa que estagnou a economia da terrinha por um longo período de tempo. O comercio só vendia por ocasião do pagamento do salário dos aposentados e dos funcionários públicos.
É verdade que houve desdobramentos consequentes quando a indústria de doce quebrou. Resultado: o Bradesco, entre outras unidades financeiras, como o Banco do Estado, encerraram suas atividades. Foi o fim de uma experiência de crescimento econômico em função de atividades irrigadas centradas na produção de banana, como parte de uma cadeia produtiva integrada.
Nos últimos dez anos verifica-se uma tímida expansão da base econômica da economia local. Veremos isso no próximo texto onde exporei os números da economia de Pombal. Essa expansão a qual me refiro deve-se ao setor de serviços, principalmente ao comercio, que apresenta sinais de crescimento em razão dos ganhos reais verificados na correção do salário mínimo, nos últimos anos, bem como ao programa de transferência de renda do governo federal, ainda pelos novos empregos gerados com a instalação do Campus Universitário e a presença de centenas de estudantes dotados de poder de compra.
Quanto ao setor secundário, apenas a construção civil dá mostras de expansão, mas com data marcada pra terminar. Assim sendo, para que a economia tenha um crescimento constante e continuado necessário se faz incorporar os demais setores produtivos na mesma rota de crescimento. Sem o qual, o PIB continuara a patinar, enquanto os municípios vizinhos, Patos, Sousa e Cajazeiras, crescem a taxas invejáveis seus respectivos produto interno bruto.
Com esse relato pretendo deixar bem claro que a irrigação poderá desempenhar importante papel na expansão da base econômica do município. Temos água, mão de obra disponível, terras abundantes. Quanto ao futuro da minha terra sou um otimista até certo ponto radical, pois acredito que, não sei quando, alguém haverá de volver os benditos olhares pra essa situação e vai entender que a mágica do crescimento econômico continuado, não existe sem a participação dos setores produtores de bens e mercadorias. Isso aconteceu no Juazeiro da Bahia e Petrolina, no Estado de Pernambuco. Nesses dois municípios projetos arrojados de irrigação os elevaram a categoria de maiores centros produtores de frutas tropicais do país.
É justo reconhecer que já foi dado o primeiro passo para movimentar a economia do nosso município. Refiro-me a implantação do Campus da UFCG aqui na terrinha graças ao empenho obsessivo do saudoso prefeito Jairo Feitosa. Mas, é oportuno ressaltar que, o fato de se instalar um núcleo de ensino superior, não significa dizer a economia do município encontrou definitivamente o caminho do crescimento. Cresce sim, mas esse crescimento se esgota quando o referido projeto atingir seus reais objetivos, seja atingir o limite máximo de gerar novos benefícios. A partir desse momento nada de novo acontecera. Repito: o que faz a economia crescer é a expansão simultânea dos três setores básicos tais como, indústria, serviço e o agropecuário.
Posto isso, é importante ressaltar que o desenvolvimento econômico não depende somente das decisões do setor público. Mas, é impossível que venha acontecer sem a participação efetiva dos poderes públicos constituídos. Convém salientar que participação do povo é decisiva, posto que, o desenvolvimento para ser real e efetivo necessariamente tem que envolver o fator “Consciência Coletiva”. Num ambiente onde as organizações civis apartidárias não se fazem representar, por absoluta falta de lideranças, não há espaço pra a implantação de projetos de desenvolvimento local de inspiração popular.
Nesse aspecto Pombal deixa muito a desejar. Parte da população prefere os partidos políticos como autênticos representantes de classes sociais diversas, às organizações civis não partidárias. Outra parte manifesta-se indiferente a qualquer tipo de organização civil. Isso reduz o poder de pressão da sociedade no que respeita a cobrança de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento econômico e social. A raiz de todo esse mal está na bi-polarização das preferências eleitorais da população. Em síntese, pode-se dizer que somos também, responsáveis pelo retardamento da economia do município porque não temos poder de cobrança.
E a juventude o que faz? Nada. Não sabem os jovens da terrinha que mais cedo ou mais tarde poderão a estar a ocupar cargos no âmbito do executivo do municipal. Com certeza, o fato de não estarem preparados para o exercício do cargo, digo, não somarem massa critica sobre a realidade socioeconômica local, com certeza vão repetir as mesmices administrativas a exemplo dos diversos executivos que os antecederam.

(Pombal-PB)

Enquanto isso, o Piancó/Piranhas corre mansamente em direção ao Rio Grande do Norte a viabilizar diversos pólos irrigados, geradores de centenas de empregos, sustentáculo econômico das populações ribeirinhas norteriograndense. E nós? Só nos resta esperança de que um dia olhares inteligentes percebam que estamos a desempenhar o papel de um robusto touro que, infelizmente não tem a capacidade de perceber a força que tem. Triste confirmação.

João Pessoa(PB), 01 de Janeiro de 2011.
FONTE: O Bê-a-bá do Sertão
Ignácio Tavares (de Araújo) é graduado em Economia com especialização em Planejamento e Pesquisa Sócio-Econômica. Professor da disciplina "Micro Economia" do Departamento de Economia da UFPB e Economista aposentado da Secretaria Estadual de Planejamento do Estado da Paraíba.
Contato:
itavaresaraujo@yahoo.com.br
(O Rio Piancó é um rio brasileiro que banha o estado da Paraíba. Nasce no município de Conceição, e dá origem ao Vale do Piancó, onde se encontra Coremas, uma das maiores barragens brasileiras).


O Site Lima Coelho já publicou de Ignácio Tavares:
Velho trem: boas recordações (12.04.2011)
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=5102
As coisas de ontem (17.08.2011)

www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=6001
Duas figuras enigmáticas (09.09.2011)

www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=6179
No tempo da bolacha peteca (17.09.2011)

www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=6240


Autor(a): Ignácio Tavares


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