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No começo dos anos sessenta o transporte intermunicipal mais barato era o trem. Por isso, a estudantada menos abastada, que não podia viajar confortavelmente na viação Gaivota, se quisesse ir a terrinha, tinha que tomar o velho e saudoso trem Asa Branca, que fazia o trajeto Recife/Fortaleza. Transporte era lento, até demais, mas, o preço da passagem cabia perfeitamente no nosso bolso. João Pessoa, 02 de dezembro de 2010
Trem Asa Branca
A viagem era pura diversão. Havia três classes de passageiros: primeira, segunda e terceira. A gente comprava passagem de terceira, mas, viajava como se fosse passageiro de primeira.
Deixávamos a bagagem no vagão de terceira e ficávamos a passear pelos diversos vagões, principalmente nos de primeira classe, onde costumavam viajar as mocinhas que retornavam pra suas cidades pelas mesmas razões: a gozo de férias.
Era por aí que começava a nossa festa. Éramos estudantes de Patos, Pombal, Sousa, Cajazeiras, entre outros municípios da região. Tomávamos o trem, na estação do Varadouro, aqui em João Pessoa, por volta das cinco e meia da manhã.
Às sete horas, chegávamos a Itabaiana, onde passávamos para o Asa Branca que vinha de Recife. Era a chamada baldeação.
A cada parada a gente descia pra comprar alguma coisa pra comer, às vezes tomar uma cachacinha, quando havia por perto. A viagem era longa e duradoura. Pois, havíamos de chegar a Pombal por volta de nove e meia da noite.
Ao chegar à terrinha, pela janela, avistava Chiquinho de Ben-Bem que estava a me esperar. Pegava a minha mala, tocava pra rua do comercio, no cumprimento da missão que fora determinada por dona Loúrdes, claro, mediante pagamento antecipado.
Como era bom respirar o ar puro da terrinha depois de alguns meses ausente. Logo após o desembarque marcávamos encontro no bar de Zé Preto, ponto de partida para uma noitada de seresta, entre outras coisas mais.
A serenata era a melhor forma através da qual podíamos avisar as namoradinhas que havíamos chegado. Queríamos cantar as mais novas canções pra mulher amada. Ah, como era bom! No outro dia era só o que se falava: os seresteiros estão de volta.
O tempo que passávamos na terrinha era aproveitado minuto a minuto. Não havia espaço de tempo perdido. À tarde íamos aos treinos do São Cristovão. O Maracatu recebia novos reforços o que tornava os treinos mais disputados.
Às vezes, quando o jogo estava zero a zero, o treino prolongava-se um pouco mais, na busca de um único gol para encerrar a partida. Como não havia refletores, quase sempre tínhamos que encerrar a partida para dar continuidade no dia seguinte.
À noite, no decorrer da semana, recorríamos às festinhas localizadas. Refiro-me aos assustados onde os jovens se encontravam para uma noite dançante. Nessas ocasiões, novos namoros começavam, outros terminavam. Mas, quando a relação era firme, tudo terminada em paz.
Nas sextas, sábados e domingos, o ponto de encontro era mesmo o bar Centenário. Este era o ponto mais procurado pela juventude daquela época.
Era uma passarela por onde desfilavam as mocinhas da cidade a exibirem a malemolência do viço jovial, com seus dotes de exótica beleza, marcada pelos traços e silhuetas típicas da mulher sertaneja.
O tempo corria rápido. Quando menos se esperava o dia do retorno havia chegado. Novamente, o velho trem nos levava de volta a João Pessoa. Casais de namorados conversavam animadamente, de mãos dadas, trocavam juras e mais juras de amor.
Parecia até que os namorados estavam a partir pra um campo de batalha em lugares distantes. Olhos marejavam, lenços acenavam em meio a choros e solicitações: logo que chegar lá me escreva! Está bem, aguarde!
Quando o Asa Branca, que vinha do Ceará, aproximava-se da estação, um apito frenético anunciava a sua chegada. Em poucos minutos, estávamos a deixar, mais uma vez, a terrinha querida.
O velho trem ao partir, fazia aquela chiadeira entrecortada, que nos remetia à lembrança dos versos do poeta Ascenso Ferreira: Vou-me embora pra Catende! Vou-me embora pra Catende! Vou-me embora pra Catende! Em marcha lenta partia.
As ruas das mediações pareciam caminhar no sentido oposto ao trem, até os limites da Brasil Oiticica. Daí por diante, eram somente saudades e nada mais.
Para amenizar o choque da partida nos pusemos a cantar:
Ela me beijou demoradamente/De mim se afastou alegre e contente/Até breve coração, juizinho ouviu/Eu fiquei na estação até que o trem partiu/Vai em paz meu grande amor/Vá em paz e volte breve/Se você sentir saudade/Pega o lápis e escreve. Em seguida alguém gritava: ah que saudades da minha Amélia! Risos! Confirmações! Contestações da platéia feminina.....
O Trem Asa Branca, com seu apito alarmante, já acusava a aproximação da próxima estação. O fiscal ao passar por nós anunciava: atenção senhores passageiros!
Quem for de terceira, tome o vagão de terceira, quem for de segunda tome o vagão de segunda, quem for primeira fique onde está. Risos! O Fiscal nos encarava com o olhar de reprovação, porém, sem nenhuma reação, prosseguia sua caminhada de vagão em vagão a repetir as mesmas palavras de ordem.
Enfim, nada mudava, e assim a gente prosseguia a caminhada até João Pessoa, onde o dever nos esperava. Mas, nos momentos de reflexões, remoia na cabeça o “vai em paz meu grande amor/vai em paz e volte em breve”.
Últimas palavras da namoradinha que ficou a nos esperar. Ah que saudades que sinto! Daria tudo para que a máquina do tempo nos fizesse retornar àquela fase esplendorosa da nossa vida. Infelizmente, a verdade verdadeira, é que, somos prisioneiros do tempo, posto que, mudamos no tempo, mas ainda não somos capazes de mudar o tempo. Esta é uma triste realidade!

CONTATO: itavaresaraujo@yahoo.com.br
FONTE: www.liberdade96fm.com.br/noticias/colunistas/inacio-tavares/3363-novo-artigo-velho-trem-boas-recordacoes.html
O TREM DE ALAGOAS
(Vou-me embora pra Catende), de Ascenso Ferreira - na voz do bibliotecário e ensaista EDSON NERY DA FONSECA, gravado por Juvenildo Barbosa Moreira (NILDO) nos jardins da Reitoria da Universidade de Brasília em abril de 2010. [Duração: 2 minutos e 3 segundos]
TREM DE ALAGOAS
(Vou-me embora pra Catende)
Ascenso Ferreira
O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.
— Adeus!
— Adeus!
Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...
— Adeus morena do cabelo cacheado!
Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:
— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto avistamos
bem perto outro mar...
Danou-se! Se move,
se arqueia, faz onda...
Que nada! É um partido
já bom de cortar...
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
Cana caiana,
cana roxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...
— Adeus morena do cabelo cacheado!
— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!
— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...
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