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- Mãe, vem!
- Já estou indo. Deixa eu me trocar!
- Vai perder a novela? Já está na metade da primeira parte. Anda!
Era sempre assim. Abadia e Olívio, diante da televisão, após o banho, assistiam a novela das seis. De vez em quando Olívio levantava e arrumava o bombril da antena para que a imagem melhorasse. A TV preto e branco não aguentava nem mais consertos e menos suportar gambiarras. Às vezes, só no muque!
A cada toque dos acordes da música Minha Aldeia, de Sérgio Souto (*), ele aumentava a voz e, no mesmo tom, cantavam juntos. Mãe e filho tinham harmonia, sintonia e bom gosto. Uma ou outra ocasião entravam em referências a fatos passados. Nunca discussão! O bem que se queriam não admitia rusgas nem elevações de timbres.
- Mãe, não se preocupe mais. Se vivi até agora sem saber quem é meu pai, não vou perturbar a senhora, como perturbei nestes anos todos. A senhora é meu pai e minha mãe. Pronto! Sou feliz do mesmo jeito.
- Está bem, filho. Um dia, quando puder, vou contar. É muito dolorido esconder a verdade. E, acredite na mãe, é muito cruel revelar como você apareceu em minha vida. Por agora, sinta-se amado e nossa vida continuará a mesma. Seremos simples e viveremos com dignidade. Saímos do chão de barro para uma casa com água, luz e cerâmica no piso. Somos ricos, filho! Somos ricos e temos paz.
Abadia era professorinha de escola rural na vila do Ipê. Olímpio, no distrito de Nossa Senhora das Neves, trabalhava na granja do Doutor Antonio Jair, o “Jair das Granja”, como era mais conhecido.
Nossa Senhora das Neves
Durante a janta, mãe e filho evitavam converseiros, mas, quando escapavam dos controles, lá entravam em algum ponto mal esclarecido.
- Mãe, por que você não gosta de frango? Lasqueira, todo dia seu Jair das Granja manda eu pegar um para a gente jantar e eu dispenso! Só carne moída! Só bife de alcatra! O que você sente por frango?
- Nojo, muito nojo! Nunca fale em frango durante a janta! Passo mal!
E passava mesmo! Até sem precisar falar! Abadia não podia ver uma galinha cacarejando e já entrava em transe. Mesmo sendo discreta, acanhada, caladona, passava mal e pedia que não falassem desse tipo de bicho na casa dela e na frente dela. Empalidecia, tremia e se desnorteava com assunto galinha, pinto, frango, galo e galeto. Até ovos! Nada que viesse desse animal era benquisto e admirado. Meio que doença! Meio que loucura!

No dia do aniversário de dezoito anos, nervosamente esperou o filho para que cumprissem as funções da boquinha da noite: o banho, a novela e a janta. Quando muito se estendiam, uma espiada no jornal, mais um pouco de prosa e cama! O sol raiava cedo! Já no portão, a nervosa espera. E o menino não chegava nunca! Estava mais que passada a hora dele chegar e nunca havia acontecido esse tipo de imprevisto. A demora virou choro e o choro virou agonia. Quase três horas depois, lá na ponta da estrada, aponta Olímpio. Vinha em passo rápido. O abraço entre os dois foi demorado e aflito. Se a cena fosse vista por outros olhos, haveria a certeza de que a morte teria passado perto.
- Meu filho, onde tu andavas? Aconteceu alguma coisa contigo? Diga!
- Calma, mãe! Vamos entrar e vou contar tudinho. Fique calma!
Sentados no sofá, veio o relato.
- Mãe, a Dona Ilka, mulher do Jair das Granja, apareceu morta na cozinha da casa deles. Ela amarrou uma corda no caibro, botou uma cadeira, deu um chute e pulou no vazio. A cozinheira foi quem encontrou o corpo e saiu gritando que nem uma doida. O Dr. Jair estava na outra granja e a Nazinha, que já é destrambelhada, saiu que nem um raio. Parou tudo! Seu Jair mandou-me dispensar o pessoal do turno e ir para junto dele. Depois que todos se foram, ficamos eu, Nazinha e ele para desatar o nó do pescoço da dona Ilka. Levamos o corpo pro quarto e lá tinha um envelope. O doutor Jair, em silêncio, leu a carta e desatou no choro.
Pálida, prestes a dar uma “pilora”, Abadia perguntou ao filho o que dizia a carta e desmaiou.
- Mãe, mãe, acorde!
Pegou álcool na cozinha, passou nos pulsos de Abadia e, após uns tapinhas, ela tornou.
- Mãe, não fique assim! Por favor! A carta dizia que ela, a dona Ilka, estava cansada de viver. Disse que não tinha filhos, nem ia ter netos, enfim, que estava cansada... Só isso e nada mais.
O distrito de Nossa Senhora das Neves e adjacências, em peso, compareceu ao enterro. Exceto Abadia. Olímpio não quis que ela ficasse exposta à tristeza da morte. Sabia da fragilidade da mãe. Passadas as tristezas, a vida tem que voltar ao normal. Em Nossa Senhora das Neves, não foi diferente. No início, naturalmente, Dr. Jair das Granja estava acabrunhado. Depois, não muito depois, a vida das chocadeiras, das poedeiras, da sala de abate e do frigorífico entraram na mesma força de produção e distribuição. Como era antes.
A vida de Abadia e Olímpio entrou nos eixos com o carinho e a paz de sempre. Paz esta que foi quebrada quando da visita de Jair à casa deles. O velho chegou de surpresa e pediu licença para conversar com Abadia. Licença concedida por Olímpio que, não querendo perder a novela, foi para a casa de sua madrinha Lelena no outro lado da rua. A conversa durou mais de meia hora, tempo demais para Abadia. Além de ter nojo de frango, não gostava de converseiros, era discreta e vivia para o filho.
- Mãe, o que o Dr. Jair das Granja queria conversar com a senhora?
Segura, com voz forte, nem se preocupou com o horário de acordar no outro dia, embora soubesse que o sol raiaria cedo.
- Vem, Olímpio, sei que a hora parece imprópria, mas já é o momento de revelar que o Dr. Jair das Granja é teu pai. Hoje, ainda que preferisse continuar tendo a paz que sempre tivemos, não devo privar meu único filho da verdade. A verdade que sempre foi reclamada. A verdade que sempre prometi contar. Tudo aconteceu quando eu tinha treze anos. Teus avós trabalhavam nas granjas e eu ficava em casa cuidando das tuas tias Belinha e Diana. Foi então que o Jair pediu aos meus pais que deixasse eu limpar o escritório dele e servisse café e suco para os clientes. Eu fui. No começo, nada a reclamar. Um dia, era domingo, e só ele trabalhava. Mandou me chamar.
Limpei o escritório e notei que os olhos do Dr. Jair me comiam viva. Pedi para ir para casa e ele não deixou. Puxou-me pelos cabelos, arrastou-me para cima da mesa, levantou minhas pernas e, tal qual um frango, fui dominada e ele conseguiu realizar o sexo.

Cheguei em casa chorando e pedi para os teus avós que não queria mais trabalhar no escritório e eles não quiseram nem saber. Na segunda vez que ele fez sexo comigo, na mesma mesa, na mesma posição de franga e com a mesma brutalidade, já eram passados três meses. Dona Ilka e a irmã chegaram e viram tudo. Pedi que ela não me batesse, mas apanhei muito. Eu já estava grávida de ti e sentia muito enjôo. Ainda assim, apanhei. As duas mulheres me deixaram quase nua. Consegui escapar das mãos de dona Ilka e corri para a outra granja onde estavam meus pais. Dona Ilka foi atrás de mim junto com a irmã dela. Uma me segurava e a outra me batia. Tiraram sangue da minha boca e chutaram minha barriga. Meus pais assistiram a tudo e não fizeram nada. Papai baixou a cabeça e mamãe só chorava.
- Mãe, a senhora está muito vermelha. Espere que busco um copo d’água.
- Pois é, Olímpio, quando meu pai descobriu que eu estava grávida, colocou-me no olho da rua. Foi assim que vim parar aqui e tua madrinha Lelena me deu a mão e um teto. Ela arrumou umas roupinhas pra ti e cuidou do meu resguardo. Depois estudei e passei a trabalhar. Primeiro, como doméstica. Depois, quando tu já estavas com seis anos, o prefeito permitiu que eu assumisse uma sala de aula, até que fui efetivada. Comprei esta casinha e, o resto, já sabes. Pronto, meu filho, eis a verdade! Teu pai e Dona Ilka ficaram sabendo da tua existência e procuraram me ajudar. Não quis aceitar nenhum tostão deles. Fiquei sempre calada. Muitos ainda pensam que és filho de algum molecote que trabalhava nas granjas. Dona Ilka e teu pai sabiam que não.
- Está bem, mãe. Eu já tinha notado que o pessoal me olha diferente. Uma mulher do frigorífico até disse que o Dr. Jair me trata como se trata a um filho. Algumas vezes eu chegava nos cantos e as pessoas paravam de falar. Era sobre mim que falavam, eu percebia, mas nunca liguei. Agora, deixe que eu me resolvo com o doutor. Fique tranquila! Você será sempre o meu pai e a minha mãe.
- Olímpio, não faça besteira! Nada mudará na nossa vida.
- Não se preocupe. Amanhã, como se não soubesse de nada, irei trabalhar. Precisamos viver, não é verdade?
Miséria de noite. Cadê o sono? Mil pensamentos de vingança passaram na cabeça do jovem. Do mesmo jeito que vinham, iam. Jamais seria executor de seu pai. Jamais incendiaria as granjas com tudo que era de pinto dentro. Jamais levantaria um dedo ou a mão inteira contra ninguém, menos ainda contra seu pai.
Mal chegou ao trabalho, pela voz do gerente, Olímpio recebeu um recado para comparecer ao escritório. O coração bateu forte. Teve uma crise de espirro, tomou água, acalmou e entrou,
- Bom dia, Dr. Jair!
- Bom dia, Olímpio! Trave a porta e sente-se!
Tal qual sua mãe, o velho não limou a língua e nem passou sebo nas palavras. Perguntou se Abadia havia conversado com ele e, diante da resposta positiva, continuou.
- Meu filho, fui um bandido! Eu era novo, cheio de garra, mas, o que fiz com sua mãe, não tem qualificação. Tenho certeza, absoluta, que somente Deus, na Sua infinita misericórdia, poderá me perdoar. Ilka morreu carregando a sua parte de culpa. Na carta de despedida, de forma muito clara, fez questão de confessar seu arrependimento. Não posso pedir que você me considere pai, mas, por outro lado, não posso negar-me o direito de querê-lo filho. Dentro do coração, acredite, eu sempre o quis meu filho.
- Eu perdôo o senhor, Dr. Jair. Minha mãe, acredito, haverá de perdoá-lo.
- Olímpio, tome esta pasta. É a garantia do seu futuro. Estão aí, devidamente legalizados, desonerados e repassados para o seu nome todos os bens móveis e imóveis que possuo. Ilka e eu decidimos assim. Isso não nos exime. Foi o mínimo que pudemos fazer. De agora em diante, assuma as obrigações das granjas. Aqui está seu contrato de gerente. Os rendimentos das locações dos apartamentos de Vitória e São Paulo, determinei, serão creditados nesta conta conjunta e caberá a você toda a movimentação. No tempo certo você decidirá sobre a venda ou a continuidade dos alugueres. A casa na Praia do Cordeiro, desde o ano passado, estava exposta à venda. Mandei retirar a placa. Talvez você queira usá-la nos períodos de veraneio. Sim, quanto aos carros, reservei um para meu uso pessoal. Também fiquei com direito ao usufruto da casa onde ainda quero continuar morando.
Olímpio pareceu encolher na poltrona. Recebeu a pasta, pensou gritar que nada queria daquele homem, mas, controlado, pediu um tempo. Queria comunicar-se primeiro com Abadia e, somente depois, daria uma resposta.
Praia do Cordeiro
- Está bem, Olímpio, aguardarei. Leve a pasta e explique tudo. Agora, meu filho, deixe-me trabalhar. Cuide, vá trabalhar, menino!!!
- Estou indo! Obrigado por tudo!
- Espere, espere! Copiei este texto para que você reflita sobre ele. Vá para sua sala e depois conversaremos.
Olímpio bateu em disparada. Queria ler o tal texto.

“A BATALHA DOS LOBOS
Uma noite, um velho índio Cherokee contou ao seu neto sobre uma batalha que acontece dentro das pessoas. Ele disse:
- Meu filho, a batalha é entre dois lobos dentro de todos nós.
Um é mau: é a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a cobiça, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, o orgulho falso, a superioridade e o ego.
O outro é bom: é a alegria, a paz, a esperança, a serenidade, a humildade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé.
O neto pensou naquilo por alguns minutos e perguntou ao seu avô:
- Qual o lobo que vence?
O velho Cherokee simplesmente respondeu:
- O que você alimentar.”


Já em casa, uma volta à rotina: banho, novela e janta. O converseiro principal ficou para depois.
- Mãe, hoje eu fui chamado pelo Dr. Jair das Granja e ele contou...
- Eu já sei de tudo.
- Sim, e o que é que eu faço? Ele disse que era o mínimo que podia fazer. E eu, qual é o meu mínimo?
- Aceitar. Não somos culpados de nada. Ele te entregou um texto sobre lobos?
- Sim.
- Alimente o lobo do bem. Em breve sairá tua nova certidão de nascimento.
Um longo abraço encerrou a noite. O sol logo raiaria...
(*) MINHA ALDEIA
Sérgio Souto
Terra da graça, sol da Amazônia
Seio da vida, hosana
Mística flor cristalina
Índia menina
Pele de mel transparente
Raça de muita fé e paixão
Minha aldeia
Rasgando a noite o luar prateia
As águas turvas do rio
Mágica luz dançarina
Planta latina
Prima do verde selvagem
Irmã de todas as estrelas
Filha de paiquerê todo ser
Minha aldeia
Ponta da Pátria que Tupã clareia
Ave nativa verdade
Da fruta doce que invade
Os teus quintais
Serena mata brilhante
Berço de pura semente
Sangue no coração, muito amor
Minha aldeia
Ipurinã chamou Aquiri
E viu o céu beijar Juruá
Chama da liberdade
Nunca vai se acabar
Em Xapuri cantou Jaçanã
Iara ouviu em Tarauacá
Santa mãe natureza
Nunca vai se acabar.

* Trilha de Rafael, Novela Sinhá Moça – Globo - 1986, telenovela brasileira exibida às 18 horas, de 28 de abril a 14 de novembro de 1986 (173 capítulos). Escrita por Benedito Ruy Barbosa, inspirada no romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, contava com a colaboração de Edmara Barbosa e direção de Reynaldo Boury e Jayme Monjardim. (Fonte Wikipedia).
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