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BUMBA-MEU-BOI É PURA CINTILÂNCIA...
Mel
Ave! Cheguei ao Arraial Literário do Poeta.
Amo o astral purpurinado dos festejos juninos, a queimação dos traques e as chuvinhas desde criança, quando eu enrolava bombril num palito comprimido e tocava fogo para fazer chuvinha...
Curto as danças populares e os chamados folguedos de São João. Portanto, bah! Não poderia faltar jamais.
E navegando um pouco no mundo das lembranças, em minha face um largo sorriso, pois de repente encontro-me “esquentando fogo” em volta da fogueira de São João... É uma doce e “caliente” recordação...
Pau-de-sebo é pura sensação... Dança da Fita? Bah! é linda! As bandeirinhas e lanternas de São João de papel de seda, revelam sensibilidade e arte.
Acompanhar bumba-meu-boi é inesquecível, desde as roupas com tantos brilhos, sedas, canutilhos, miçangas, paetês, purpurina, plumas e fitas... e fitas... é tudo cintilância, que recebe um fecho de ouro na arte do “couro do boi”, que é ricamente bordado e em geral é de um brilho e de uma beleza deslumbrantes.
Brincar boi, não é apenas a apresentação dele no São João. Tradicionalmente o boi passa por um ciclo de vida: ensaios, batismo, as apresentações públicas e a morte. Dizem que a Matança do Boi é memorável. Mas eu nunca assisti a uma. Apenas desejo.
Para quem não é brincante de um boi, ele é um ser repleto de magia e de encantamento, desde a perfomance das apresentações às toadas, aos ritmos, à alegria de festejar por festejar... E que venham as zabumbas, as matracas, as orquestras, as batidas costa de mão...
Impossível descrever com exatidão um “boi”, o quê é bumba-meu-boi. É preciso ver, sentir, alisar o couro do boi e ficar besta, bestinha, diante de tanta beleza.
Para uns o boi “é um bailado popular dramático”; “é um auto brasileiro, único em sua espécie, sem igualdade e semelhança em Portugal e África”; “é um auto em que se misturam teatro, dança, música e circo”.
Mas há quem diga que o bumba-meu-boi é uma ópera popular, surgida n século XVIII, única e inimitável, cujo enredo “resgata uma história típica das relações sociais e econômicas da região durante o período colonial, marcadas pela monocultura, criação extensiva de gado e escravidão.”
De modo que só posso dizer que gosto também de acompanhar e apreciar todas as versões do Auto do Bumba-meu-boi, que por não ter autoria comporta inúmeras visões.
E em meio tanta riqueza musical e alegórica temos ainda o Boizinho Barrica, que é o que poderíamos chamar de uma leitura de tantos ritmos.
Para Zé Pereira Godão, o Boizinho Barrica é “Filho dos terreiros e folguedos maranhenses, o Barrica é um boizinho superencantado: amante da Estrela Dalva, a Papa-Ceia, o novilho ascendeu aos céus à luz da Estrela Bailarina, que o seduzira. Pendurado em uma varinha de condão, cheio de catuaba até nos olhos, com o rabo de saia e o couro de fitas, o Boizinho Barrica é a pura embriaguez do amor.”
Mas ainda falta São Pedro. Sempre fico emocionada toda vez que vejo a Procissão de São Pedro, terrestre ou nas águas, a Festa dos Pescadores, porque é um espetáculo cultural popular dos mais belos, com canoas e barcos estilizados na maior “chiqueza” do mundo, com flores, bandeirinhas de papel de seda e de crepom, estandartes com a imagem de São Pedro e fitas e fitas...
Mas confesso que tudo isso é muito mais espetáculo, ouso até dizer que é um espetáculo único, na Ilha dos Amores. E para “mulherar” a cidade de São Luís, socializo a mais bela poesia que alguém já fez para a nossa capital, a partir de versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Tá de bom tamanho e envergadura, não é?
Pó de pirlimpim, brilhos, seda, canutilhos, miçangas, paetês, purpurina, plumas e fitas... fitas e fitas...
Enfim, cintilâncias para todo@s e Viva São João!
Um abraço da
Mel
Publicado no Site Lima Coelho em : 23.06.2007
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=256
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SANTOS DO MÊS DE JUNHO
Daladier Pessoa C. Lima
Neste junho de 2010, as atenções persistem para os santos do mês, Antonio, João e Pedro, apesar do brilho midiático da Copa do Mundo. A Copa traz intensa – mas passageira – emoção, enquanto os três santos despertam emoções mais profundas, nascidas de votivo bem-querer. As festas juninas remetem-nos para velhos tempos, acalentam lembranças da infância, fazem recordar fatos e encantos do passado, acendem o lume das raízes telúricas e culturais. Evocam-se santos alegres, festeiros, bonachões, ligados a crendices e superstições, com forte apelo popular e que vão além da convicção religiosa. Quem fica indiferente a uma rua embandeirada, às fachadas das igrejas e capelas prontas para a festa, ao colorido das roupas das quadrilhas, ao ritmo do baião e do forró, à visão ou ao cheiro das canjicas, das pamonhas e do milho assado?
Menino do interior, tive a sorte de passar várias festas juninas nas fazendas Riacho e Favela, terras dos meus avós seu Chiquinho e dona Olindina, em São José de Campestre. Noites alegres, inesquecíveis, rojões, buscapés, traques, e estrelinhas; muita comida de milho, sanfona e pandeiro, tudo e todos ao redor de enorme fogueira. A família reunida e meu avô no comando, pois era o mais animado do grupo. Com requinte, sabia puxar quadrilha, quando não faltavam palavras de ordem com timbre francês: balancê, anavantur, anarriê, travessê, e por aí seguia. Lembro que um jovem vaqueiro da fazenda Riacho convidou-me para ser seu compadre de fogueira. Sobre dois tições em brasas, feito uma cruz, o aperto de mãos selava o compromisso, ao se repetir quatro vezes, mudando de lugar: São João disse, São Pedro confirmou, que nós fôssemos compadres, que Jesus Cristo mandou. O vaqueiro Chico Borges, que depois se transformou em dono de parte da fazenda, levou a sério aquele contrato e, ao longo do tempo, fomos compadres de verdade, nas saudações e na amizade. Chico Borges morreu ainda moço, por doença cruel e rápida. Seu compadre de fogueira, mesmo médico, tentou ajudar, mas nada pôde fazer.
A devoção popular atribui a Santo Antonio a graça de operar milagres, para atender suspiros e preces de moças à procura da cara-metade. Tenho uma amiga, já com muitos natais, que ainda sonha com o véu e a grinalda, e não perde a esperança, pois o seu Santo querido “tarda mas não falta”. Muitas dessas crenças e crendices vieram com os portugueses para o Brasil, conforme estudos de Câmara Cascudo e de outros folcloristas. Há poucos meses, visitei a Igreja dos Mártires, em Lisboa, localizada na rua Garrett, no Chiado. É uma linda igreja, reconstruída depois do terremoto de 1755. A fachada fica próxima à rua e quase vis-a-vis com o famoso bar A Brasileira, que tem a figura em bronze de Fernando Pessoa, sentado a uma mesa da calçada, a escutar – quem sabe? – o sino da sua aldeia. Nas laterais da nave principal da Igreja, existem altares de santos bem conhecidos, todos adornados com flores e com velas luzentes deixadas pelos devotos. Porém o altar mais florido e com real profusão de velas era o de Santo Antonio. Assim, lá como aqui, ainda são muitas mulheres à espera do dia de dizer “aceito”, embora estejam em voga o ata e o desata dos novos casais. Parece até que o Antonio lá de cima só atua na fase da escolha, mas não fornece termo de garantia.
São João é o mais festeiro dos três. Não é à toa que a fogueira vincula-se ao seu dia – 24 de junho – , quando Isabel fez arder a lenha para avisar à prima Maria o nascimento de João Batista. E São Pedro, pescador da Galileia e protetor das viúvas? Não precisa dizer nada, basta saber que ele tem nas mãos as chaves do céu.
Daladier Pessoa Cunha Lima é reitor da FARN.
FONTE: www.defato.com/18_06_2010/artigos.php
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PADRINHOS DE LUZ
José Antonio
Numa noite de São João no calor da fogueira, nos idos da década de 50, no Distrito de Engenheiro Ávidos (Boqueirão), de uma tacada só tomei como padrinho de fogueira mais de uma dezena de pessoas. No dia seguinte só era chegando os meus padrinhos na bodega de meu pai e comunicando o fato e já o chamando de compadre. Infelizmente todos já morreram, mas sempre respeitei os meus padrinhos de fogueira e onde quer que estivessem, sempre pedia suas bênçãos. O último deles, manoelzinho, morreu a alguns anos atrás.
Hoje estar acontecendo o contrário, eu é que tenho alguns afilhados de fogueira e nesta última segunda-feira, dia 23, fui passar a noite de São João numa garra de terra que possuo as margens do Rio Piranhas, batizada de Faisqueira e fui padrinho de Keyla uma inteligente menina-moça e minha esposa Antonieta da jovem Zoraide. Enquanto eu procedia o ritual do “batismo de fogo”, evocava as lembranças daquela bela noite em Boqueirão, há mais de 50 anos atrás, quando declamava o ritual, no calor da fogueira, de mãos dadas, quando padrinho e afilhado repetem por três vezes, a frase:
“São João disse
São Pedro confirmou
Eu sou seu padrinho
Que São João mandou”.
Entre o carnaval, o Natal e o São João, a festa que mais demonstra solidariedade e fortalece amizades são as juninas que entrelaçam as pessoas pelo coração. Não tem um apelo comercial, nem propaganda exacerbada para o consumismo. Um compadrio de pé de fogueira tem um simbolismo muito forte, muitas vezes mais do que os laços de sangue: “São João dormiu/ São Pedro acordou/ vamos ser compadres/ que São João mandou”, entrelaça amizades e é como se escolhesse um irmão. Conheço compadres de fogueira cujo tratamento e relacionamento os levou a ser verdadeiros amigos fraternos e eternos.
São João Batista, santo católico, era primo de Jesus Cristo, nasceu em 24 de junho e morreu a 29 de agosto do ano 31 d.C. na Palestina. Foi degolado por determinação de Herodes Antipas, a pedido de sua enteada Salomé, pois a pregação do filho de Santa Isabel e São Zacarias incomodava a moral constituída na sua época.
Foi João Batista que teve o privilégio de batizar Jesus nas águas do Rio Jordão e foi um dos santos que teve o poder de dar ao mês o seu nome (mês de São João) e qualificar de “joaninas” ou “juninas” as festas realizadas no decurso dos seus 30 dias.
O ritual da fogueira para nós sertanejos tem um significado que extrapola a tradição e se torna uma devoção ou quase uma obrigação acende-la a cada ano em frente de nossas residências. Existe uma versão que Isabel, a mãe de João Batista, mandou acender uma fogueira, em frente da casa, com a finalidade de avisar para sua prima Maria, o nascimento do Filho divino. E a cada ano acender a fogueira é como se fosse a renovação da fé cristã. É como se as labaredas se transformassem em luzes a iluminar o nosso caminho e que as cinzas, na manhã do dia seguinte, espalhadas em derredor da casa, nos protegessem até o ano seguinte.
Este ano, enquanto acendia a fogueira da minha casa, fiquei relembrando o meu pai que nunca deixou, enquanto vivo, de acender uma fogueira em homenagem a São João, sempre acompanhada de muitos foguetões, bombas, chuvinhas, traques e “bufa de vei” para os netos pipocarem na calçada de sua casa, acompanhada ainda de muita comida deliciosamente preparadas por minha mãe.
A festa de São João é a mais sertaneja de todas, a que toca mais de perto os nossos sentimentos, a nossa alma. É uma festaque para participar basta um vestido ou uma camisa de chita, uma alpercata de sola, um chapéu de palha, a canjica, a pamonha, o bolo de caco ou de milho, batata doce assada na brasa e o pé-de-moleque. Uma festa popular, popular até na gastança e nos instrumentos para o arrasta-pé do pé de serra: zabumba, triangulo e sanfona, num pavilhão de barro batido rodeado de bandeirolas e palha de coqueiro e viva São João!
“Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo...”. A noite de São João é só encantamento, luz, forró, milho assado que foi plantado no dia de São José, foguetão a valer e muito amor.
José Antonio - professor Universitário, Diretor Presidente do Sistema Alto Piranhas de Comunicação e Presidente da Associação Comercial de Cajazeiras.
altopiranhas@uol.com.br
FONTE: www.diariodosertao.com.br/artigo.php?id_artigo=20080626075545
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MÊS DE SÃO JOÃO
Daisy Maria Gonçalves Leite
Inicio de junho. Mês esperado com ansiedade não só pelas provas de final do primeiro semestre no colégio, hora de garantir média para a aprovação no final do ano letivo, mas mês de Santo Antonio - dia dos namorados - São João e São Pedro.
A nossa paróquia era de São Pedro e haja festa. O mês era todo de festa, e já era tempo de irmos comprando a chita e os bicos para fazer o vestido das festas juninas, para dançar quadrilha, no Alecrim Clube, os ensaios começavam no inicio do mês.
Os festejos juninos têm início ainda na Europa antiga, onde durante o solstício de verão - dia mais curto com noite mais longa do ano - era comemorado o início da colheita. Nessas festas eram oferecidas comidas, bebidas e animais ao deus Juno, da fertilidade, além da fogueira, para espantar os maus espíritos e as danças características da época. Com a difusão do catolicismo, os festejos se transformaram e acabaram homenageando os santos que nasceram no mesmo período da antiga festa pagã.
Foram os jesuítas portugueses que trouxeram os festejos para o Brasil. Mas antes, os índios já realizavam rituais também relacionados à agricultura, que aconteciam no mesmo período, para que a colheita fosse boa. Dessa mistura das comemorações dos índios com a dos jesuítas portugueses, as festas juninas foram ganhando forma e tornando-se uma festa típica do nordeste brasileiro.
Nas festas juninas não podem faltar além da culinária típica da época, as fogueiras, que na era cristã, estas comemorações foram adaptadas ao nascimento de São João - filho de Zacarias e Isabel (prima de Nossa Senhora), que teria sido em 24 de junho. E conta a historia que Izabel mandou acender uma fogueira do outro lado do rio, para avisar a sua prima Maria do nascimento de seu filho João. Posteriormente, Portugal incluiu a festa de Santo Antônio (monge português da Ordem Franciscana) no dia 13 de junho, dentre os festejos juninos e, para finalizar o mês, foram inseridas homenagens a São Pedro e São Paulo (apóstolos de Jesus Cristo), no dia 29.
No nordeste brasileiro eram comuns os padrinhos e afilhados de fogueiras: -"São João, disse. São Pedro confirmou. Que você fosse minha Madrinha. E você meu Afilhado. Que Jesus Cristo mandou": Repetia-se três vezes cruzando a fogueira e era para o resto da vida aquele laço.
O mais excitante era fazer as adivinhações que vovó nos ensinava.
As colegas vinham lá pra casa e após o lanche de canjica de milho verde com leite de coco, bolo pé de moleque (bolo preto) recheado com castanha de caju, arroz doce com leite e canela em pó, pamonha cosida na palha do milho e outras delicias, começávamos a seção de adivinhações com vovó nos orientando. A primeira adivinhação que fiz foi de rezar a Salve Rainha até "nós mostrai", depois ficar atrás de uma porta com os ouvidos atentos para escutar o primeiro nome masculino que fosse chamado. Então este seria o nome do meu futuro marido. Para mim foi uma grande decepção escutar vovó chamar JOSÉ, eu que estava flertando com o Fernando. Mas ela me confessou depois que havia feito de propósito quando notou que eu estava me escondendo atrás da porta. O certo é que casei com José Luiz.
Aos 16 anos de idade, trouxe uma faca virgem da loja para depois de rezar a Salve Rainha, até "nós mostrai", enfiá-la numa bananeira. Como havia muitas bananeiras no nosso quintal tive o cuidado de escolher uma bem escondida para ninguém encontrá-la e fiz o meu ritual.
Passei a noite dançando no clube. Já clareava o dia quando voltamos para casa, completei a oração e retirei ansiosa a faca da bananeira. Outra decepção. E desta vez tudo indica que ficaria para ‘titia’.
Depois vovó analisando bem os desenhos, disse que parecia o céu e o mar com a linha do horizonte no meio. Foi pior, as minhas irmãs e amigas começaram a fazer brincadeiras dizendo que eu ia casar com marinheiro.
A adivinhação até certo ponto não mos enganou, uma vez que eu só tinha na estrada da vida, a minha frente nos próximos 18 anos, terra, céu e mar.
Só não viajei de submarinho!
FONTE: www.vaniadiniz.pro.br/daisy/cronica_mes_de_sao_joao.htm
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COMPADRE DE FOGUEIRA
Célio Simões
Já estamos em junho e a cidade vai aos poucos embarcando no clima das festas dos santos populares. Os primeiros sintomas são as barracas de comidas típicas que podem ser vistas dentro de supermercados e shoppings, com cobertura de palha de buriti, vendendo as deliciosas iguarias da época.
Outro indicativo da chegada de junho é o intenso ensaio nos bairros mais afastados, visando o concurso de quadrilhas, hoje descaracterizadas como fenômeno popular e rural, não propriamente pela indumentária, porém pela influência de outros ritmos, principalmente o axé e o forró, fazendo aumentar substancialmente o número de pares nos cordões, que dançam num frenético sacudir de braços como se fossem voar.
Nem sempre foi assim. Se tradicionalmente comemorava-se a quadra junina em quase todo o Brasil, com especial destaque para o Nordeste (quem já foi em Caruarú?), o costume de homenagear Santo Antônio, São João e São Pedro sempre fizeram a felicidade das pequenas cidades da Amazônia – Óbidos entre elas.
Lembro que a infância descompromissada me fazia assíduo freqüentador das exibições do Boi Bumbá do Antonico Pé de Arpão e da Arara da dona Maria Ramos. Não me foi dado participar da Garcinha, da dona Maria José Ferreira, pois na fase áurea de sua existência já residia em Belém. No entanto, tenho nítida lembrança de serem aqueles magia pura, com os pares evoluindo ao som do pau-e-corda, exibindo-se com desenvoltura nas casas de famílias que previamente os convidavam.
Impedido de entrar no Alegria Clube, pela distância de casa, pela idade e principalmente, a míngua de numerário para pagar o ingresso, não dispensava assistir os ensaios do lado de fora, onde as meninas “de segunda” (haja preconceito!) eram bonitas e acolhedoras aos que, morando no centro, para lá se aventuravam.
O bom mesmo era repetir essa aventura na rua Dr. Machado ao fim da qual ficava a residência de dona Maria Ramos. Era ela que pessoalmente cuidava das fantasias, da seleção dos brincantes, mandando enfeitar a frente da casa com as famosas bandeirinhas de papel colorido tomando cuidado para que a fogueira, em chamas, não reduzisse a cinzas o trabalhão que tivera para montar as alegorias.
As fogueiras eram armadas ou nos quintais ou no meio da rua. O avanço da urbanização e o asfalto foram aos poucos eliminando os quintais, itens indispensáveis à tipificação da quadra junina. Ao redor das labaredas, pessoas ligadas por forte amizade aproveitavam para estreitar ainda mais esse vínculo, tornando-se “compadres de fogueira”. Sem burocracia, bastava circundar as chamas três vezes em sentido horário e anti-horário, sentindo no rosto o calor do braseiro, repetindo de forma simultânea:
“Santo Antônio disse,
São Pedro confirmou,
que nós seremos compadres,
porque São João mandou...”
Pronto. Estava sacramentada uma amizade para o resto da vida, mais sólida do que aquela ungida na pia batismal, dentro da premissa (verdadeira, diga-se de passagem) de que parente a gente já nasce, enquanto o amigo a gente elege. 
Junho é época propícia para simpatias. No dia doze - dedicado aos namorados - as moças solteiras, desejosas de casar, além de colocarem a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo sob a cama, tinham a mania de enterrar uma faca no tronco da bananeira para tirá-la no dia seguinte. Acreditavam piamente que a lâmina, refletia nas matizes do sol do meio dia, revelava as iniciais do príncipe encantado, não fossem elas próprias a vislumbrarem as letras a seu bel prazer. Nenhuma delas, já casadas, admitiu a prática anterior desses rituais, fruto da imaginação de quem vivia encalhada.
Meu vizinho na Dr. Machado era o jovem Prefeito Dr. Hélio Marinho, que fazia questão de contratar os cordões (bois ou pássaros) para exibição em frente à sua casa. Era um palco privilegiado. Tangidos pelo acordeão, pandeiro, violão, triângulo, zabumba e cavaquinho, sem os quais nenhuma quadrilha vingava, lá vinham os “matutos” com suas roupas chamativas dançando ao compasso binário que propiciava o cadenciamento das marcações, com um “noivo” e uma "noiva” à frente do grupo, pois toda quadrilha que se preza termina com um casamento ou a ressurreição do animal abatido pelo caçador, pelos infalíveis remédios do pajé.
No mais das vezes, o desafio entre os brincantes descambava para a desfeiteira. Versos improvisados que faziam rir pelo que tinham de irreverência. O cavalheiro para a dama:
“Sai daqui sua fedorenta,
sua catinga de mucura,
se na vida tu já fede,
que dirá na sepultura!”
E ela, fazendo-se de ofendida:
“Axí pixelento! ”
Ou então:
“Menina case cumigo
sô rapaz inteligente,
só quero que vucê mi dei
sua caixinha de fazer gente”
E ela, revoltada:
“Mamãe, este corno tá com saliença pro meu lado!...”
Nunca deu nenhuma briga. Tudo era encenação, própria da época. Nessa festiva quadra a molecada se esbaldava soltando estalinho, foguetinho, cabeça-de-negro, rojão, buscapé e cobrinha que com o tempo foram sendo abandonadas pela possibilidade de acidentes. Outro detalhe desse nostálgico período eliminado por completo foi o costume de soltar balões de belíssimos efeitos visuais, que subiam ao céu ao sabor do vento do Amazonas e iam pousar não se sabia onde – até que veio a legislação federal banindo-o em definitivo pelo risco de incêndio que representam. Também a meio caminho ficou o famoso mastro de São João, erguido em louvor aos aludidos santos populares, no topo do qual eram amarradas três bandeirinhas, lá permanecendo durante todo o mês de Junho. As jovens queriam porque queriam apenas tocá-lo, para ter a certeza do matrimônio no ano subseqüente...
O que restou mesmo daquele tempo tão gostoso?
Uma única vez cheguei a integrar uma quadrilha onde o ritmo dos ensaios só não foi melhor porque as músicas eram tocadas pelo sanfoneiro Pió Pió. Um desastre. No dia da festa, enfiado numa calça remendada e chapéu de palha, com minha parceira envergando um vestido de chita, dançamos a noite inteira no espaçoso quintal confronte a esquina do Bar Andrade, ao som animado de um conjunto musical contratado no Arapucú. O arraial varou a noite e não faltou broa de milho, canjica, pamonha, munguzá, aluá e bolo de macaxeira. Lá pelas tantas, adentrou gloriosamente na ramada o “Galo da Serra” do amigo Antonico, que vinha na frente enfeitado parecia um rei. O forró virou até uma da madrugada, hora avançadíssima para aquela Óbidos de quase cinqüenta anos atrás.
Daquele junho de ontem é que guardo boas imagens, tão gratas quanto distantes. Lendo esse despretensioso texto, muitos obidenses da minha geração haverão de concordar que tivemos uma fase gloriosa de tradições juninas, hoje rarefeitas. Até São Marçal, celebrado no último dia do mês com a queima de paneiros velhos, perdeu por completo o status e nem é mais comemorado.
Num rápido cotejo, o que se vê pelos jornais é o aceno de noitadas juninas animadas por bandas tipo “Aviões do Forró”, de cantoras como Viviane Batidão ou do Mike do Mosqueiro, incumbidos de incrementar as cotoveladas com a ajuda de anônimos DJ’s, atacando de technobrega, que definitivamente sepultaram a espontânea alegria dos antigos pau-e-corda.
Não é culpa deles se a coisa mudou de figura. Não há mais lugar para o “compadre de fogueira”, que sem dúvida tornou-se um costume em extinção. Não exatamente pela ausência de amizades sólidas, que estas felizmente ainda existem para compensar aquelas que não o são. O que não mais se vislumbra são as vistosas, calorentas e crepitantes fogueiras, em torno das quais as pessoas selavam sem maiores formalidades o antigo e bom compromisso de sincero afeto para a vida toda.
Célio Simões – presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos - Pará
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SOBRE JOELHOS & MEL
João Batista de Oliveira Filho
Estando eu na Ilha dos Mutuns, delta parnaibano, sucedeu ir passar uns dias num povoado, Cal, que fica numa ilha vizinha, por nome Grande de Santa Isabel. Destino certo: a casa de minha madrinha, cujo pai, João, primo de minha mãe Dadinha, foi me buscar no lombo do Branco (que de branco não tinha nada), cavalo cinzento salpicado de manchinhas cor de carvão, mais bonito, até então, nunca visto. Entre uma ilha e outra, no trecho mais estreito, um igarapé, que bicho-gente transpunha por sobre uma ponte de dois paus e bicho-bicho, no caso, cavalo cinzento salpicado de manchinhas cor de carvão, arreios tirados, atravessou nadando. Arreado o danado outra vez, e num toca que chega, em meio ao areial e cajueiros sem conta, chegamos, por fim, quando a boca da noite engolia os últimos suspiros do sol. Depois do asseio, atendendo ao chamado de minha madrinha, fui jantar. Nesse ponto, tem sempre algum gaiato que pergunta: - E madrinha: tem nome não? – não, não tem. Madrinha é madrinha. Só! Bem, nem tanto: houve uma que atendia por nome, nome de flor, mais que flor, Rosa, sem jardim, sem igreja, só careceu duma fogueira e nós ao seu redor, repetindo três vezes: - “São João disse, São Pedro confirmou, serás minha madrinha (serás meu afilhado), porque São João disse... e São Pedro confirmou”. Vez por outra, quando lembro dos que se foram, inda me pego dizendo – “bença, madin’a Rosa”. Reatando o fio do novelo, digo do jantar (entre pessoas que não conhecia bem, com uma única exceção), em meio a tanta coisa que eu gostava: tapioca, macaxeira, cuscuz (de milho e de arroz), manteiga de nata, café, leite, queijo, requeijão... pra meu pesar, madrinha, logo ela! me perguntou se queria suco de murici... Fosse de manga, caju, bacuri, laranja, limão, cajazinha, ah, como eu teria gostado! Mas de murici, que sempre detestei?! Inda não tinha aprendido a dizer “não”. E me vi naquela enrascada: um copão de alumínio, dos grandes, acima do meio de desgosto, bem à minha frente. Encabulado, via um tantão de coisa boa: tapioca, macaxeira, cuscuz (de milho e de arroz), manteiga de nata, café, leite, queijo, requeijão, farinha de puba... Farinha de puba! Envergonhado, sem saber o que fazer, disse que gostava mesmo era de farinha de puba no suco. Coloquei uma colherada, mais outra, mexi, mexi... E a farinha foi inchando, inchando... À proporção que aquela gororoba inchava, qual maré enchente, que primeiro lambe a parte mais baixa dos barrancos, retrocede um pouquinho, e avança mais e mais, até preencher por completo o leito dos igarapés e rio – as lágrimas dentro de mim se avolumavam. D’um olho, o primeiro pingo no copão de alumínio. Mais outro. Outros mais. Maré cheia. Minha madrinha e a parentada, aflitas, indagavam o porquê de tanto choro. Só consegui falar - “Mamãe, mamãe, quero mamãe!” Minha mãe não tive naquela noite não, porém, João me prometeu e cumpriu: dia seguinte, o sol bocejando, seguimos de volta pro aconchego de mamãe, na Ilha dos Mutuns. Faz tempo: anos!... mais de quarenta.
Soares Feitosa, mel de engenho com farinha, gosto demais! Sempre gostei de mel, melado, no tacho, antes de dar o ponto da rapadura, com um pedaço de cana, previamente raspado, molhar naquela mistura, e quando conseguíamos pegar com nossas mãos de criança, puxa que puxa, puxa-puxa, que delícia!
...
Bem, depois de ler “Joelhos & Mel” uma cacetada de vezes, digo: gostei. Gosto de mel, melado, no tacho... muito embora, depois de muito escarafunchar - puxa-puxei mais dúvidas que certezas!... sabe como é... maré enchente... “Mamãe, cadê você?”
João Batista de Oliveira Filho – Contato: ilhamutuns@brturbo.com
FONTE: www.revista.agulha.nom.br/jboliveirafilho.html
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FESTAS JUNINAS
Rosalice de Araújo Scherffius
Arraiá Junino é coisa de criança, para crianças de todas as idades
"Quanta fogueira, quanto balão
quanta brincadeira
todo mundo no terreiro faz adivinhação..."
E a meninada escutava atenta enquanto as avozinhas de uns e de outros se revezavam mantendo a moçada ocupada,para que os adultos também pudessem ter o seu divertimento. "O que é, o que é... uma capelinha branca,sem porta e sem tranca?"
"Essa eu já sabia, é um ovo!" muitas vozes alegres e inquietas reclamavam ao mesmo tempo. "Então vamos pra outra, ou vocês querem ouvir uma historia de trancoso?" a bondosa velhinha tentava apaziguar os ânimos e não perder a freguesia, pois os pequeninos podiam disparar em corridas a procura de seus pais a qualquer momento. Mas existe uma arte no entreter crianças...é preciso manter a atenção e o foco ...é preciso ter manha de Vó, que tudo sabe e nunca se cansa... que pode num instante fazer criança parar de chorar e sorrir por uma besteirinha de nada..."Venham cá, tenho uma historinha especial pra vocês,comeca assim ... "
"Era uma vez uma galinha pedrez,
soltou um pum pum
pra voces trez"
E a gargalhada era solta e ingênua! a meninada toda sorria sem parar por um bom tempo, fazendo com que a audiência aumentasse... agora também as mocas e rapazes solteiros também queriam vir ouvir o que se passava naquela roda.
As varandas e alpendres de algumas casas se vestiam de bandeirinhas e bandeirolas azul e encarnadas (acho que era assim que chamavam a cor vermelha). No terreiro do Arraial era a maior animação! Quadrilha a ser dançada com todos os necessários apetrechos, noiva e noivo, padre, o gritador que sabia pronunciar as palavras francesas "Anavant, Anarrier, balacer com seus pares...
nos seus lugares"...
Guloseimas não faltavam, cada família trazia alguma coisa, e de repente havia ali, diante dos olhos de todos uma festa de dar água na boca a qualquer um...Fazem muitos anos (algumas décadas, para falar a verdade), que apenas posso sonhar com estes sabores tão queridos de minha infância...
O cardápio era ilimitado aos meus olhos infantis e já não recordo todos os pratos servidos durante as festas juninas, eram balinhas de limão, bolinhas de coco chamadas beijos, broas de goma, cuscuz com leite e nata, tijolinhos de doce de leite, mungunzá, pamonha, milho verde cozido ou assado, pé de moleque, batata doce assada na fogueira, canjica, arroz doce polvilhado com canela, bolo de macaxeira, e aquele refresco feito com cascas de abacaxi, cravo e canela e envelhecido no pote de barro, acho que o nome é aluá...nem fala...
Na região Nordestina de Caetés, (mais precisamente em terras Alagoanas), se comemora um pouco deste nobre e rico folclore, tão peculiar ao brasileiro, tão pleno de riquezas como a própria historia de um Brasil, mesmo antes de assim ser chamado...a gente boa dessa área ainda desfruta o privilegio de brincar o Pastoril, forró e quem sabe até mesmo musica de zabumba , sanfona, triangulo, pandeiro, quem sabe reco-reco também... O " Arraia Caetés" fica assim na historia...
Com certeza a fogueira vai queimar com o ruído das palhas do milho ou bananeira salpicando pra todo lado, fazendo as mães mandarem a meninada se afastar do fogo um milhão de vezes! Papai gostava muito de ferver a água da chaleira nas brasas da fogueira e depois mamãe fazia café,daqueles torradinho em casa mesmo. Ele dizia que era o único café realmente quente, próprio para o consumo de quem apreciava a iguaria... inúmeras vezes , eu ouvi um amigo de Papai contar para diferentes pessoas, a história de um homem que não sossegou enquanto não tomou o café perfeito. Assim diz a conversa, que o tal homem mandou a mulher torrar, moer, pilar e preparar o café com água quente, fervida nas brasas de fogueira de lenha, escaldar a xícara e em seguida ele tomou o café ainda borbulhando de tão quente que estava! apos este ato, o cavalheiro passou o dedo indicador ao redor da boca, arrodeando o contorno da mesma, e em seguida, jogou os lábios fora!!! imagine a queimadura!!! Quando menina eu visualizava a cena em minha mente, o homem a procura do "café perfeito" que tinha de ser assim tão quente! Nunca fez sentido para mim, mas eu jamais ousaria questionar uma historia contada por um amigo de Papai.
E as cumades e cumpades?
"São João disse, Sao Pedro confirmou
vamos ser cumades,
que São João mandou"
Pula pra lá, pula pra cá - do lado da fogueira algumas toras de lenha eram posicionadas de maneira adequada para que as pessoas pudessem selar seu novo "parentesco por escolha e boa amizade"... como é rico o folclore de nossa bela terra!
Imagino que existem raizes ainda mais profundas do que as que na sup[erficie podemos observar.
"São João disse, São Pedo confirmou
seja meu afilhado,
que São João mandou"
Talvez um contrato, um vínculo de validade inquestionável!
Cumpadres e comadres e seus afilhados e afilhadas são assim tão "parentes" quanto aqueles a quem estamos ligados por nascimento... Por que o costume? de onde e quando se origina a tradição?
E os fogos? E os balões? existem ainda balões nos céus juninos brasileiros deste novo milênio?
"Noite fria, tão fria de junho
os balões lá no Céu vão subindo
pelas nuvens aos poucos sumindo,
vão os balões lá no Céu...
*
Os balões devem ser com certeza,
as estrelas daqui deste mundo,
pois as estrelas do espaço profundo,
são os balões lá do Céu...
*
Balões dos meus sonhos dourados,
subiste encantado olhando Jesus,
hoje as crianças pegaram rasgaram teu bojo de listras azuis..."
Muitas musiquinhas de São João vararam o tempo e permaneceram famosas... imagino que existem outras tantas
que precisam soltar sua voz e clamar um espaço que ainda existe , no coração de crianças de todas as idades...
Entre Santo Antonio e suas adivinhações, São João e todos os festejos plenos, e até São Pedro com suas quadrilhas e forrós, ali, bem no finzinho de junho, para garantir que todos participem um pouquinho... temos os festejos mais animados do coração da terrinha querida.
FONTE: www.revista.agulha.nom.br/rscherffius2c.html
*
ACENDER FOGUEIRA E BATER TAMBOR
Fátima Oliveira
As festas juninas são panculturais e datam das sociedades pagãs européias, bem antes de Cristo; existem "em todos os tempos e em todas as partes".
Antes de começar a escrever passei os olhos em vários sites pra apreender o que rolava... A política tem cansado minha mente. Zanzei e dei de cara com uma manchete do "Valor": "País vive melhor momento desde a Proclamação da República, diz Lula". Como não tenho tanta certeza assim, prefiro silenciar. Por enquanto. A outra notícia que encheu é o Renangate, cujo desfecho só as deusas sabem.
Coisa pras divindades mesmo, pois como disse um outro senador, o X da questão é que todo mundo tem a "sua" e o "seu"... Então, solidariedade é preciso. E o Senado, quase como um bloco monolítico, saberá se sair à altura da dupla moral sexual e dos péssimos costumes de fazer sexo inseguro. Em nome da moral, da família, da propriedade privada e dos bons costumes. Volto-me para meu torrão natal vibrando para que o Tambor de Crioula se torne patrimônio imaterial brasileiro.
Um cheiro, por merecimento, ministro Gilberto Gil! Dou total razão a quem disse que o Tambor de Crioula é uma dança sagrada e mágica. Acho que fui eu, mas não tenho certeza. O rufar dos tambores pega a gente de corpo inteiro. Pra quem crê, penetra no corpo e na alma. Há transe. Dá uma zonzice só de a gente olhar. É assim: "As mulheres fazem uma roda e, no centro da roda, só uma delas dança, em frente do grupo de três tambores, que não param de tocar".
E dá-lhe umbigada, êxtase da dança, na marcação do tambor roncador. São três tambores. O pequeno repica, o médio (meião ou socador) dá o ritmo; e o grande (roncador) faz a marcação para a umbigada - "convite para que uma outra dançarina vá para o centro da roda". E de repente sinto saudades das festas juninas passadas no interior do Maranhão (minha infância) e na cidade de São Luís (adolescência e parte da juventude).
No médio sertão, onde nasci, festejava-se os três santos de junho: santo Antônio, são João e são Pedro. Ah, era cada bolo maravilhoso que fazia a minha avó, sem falar nas batatas-doces assadas nas brasas da fogueira. E canjica e chá-de-burro. Ah, só delícias! O friozinho de junho, as fogueiras e os fogos. Usávamos pijamas de flanela. Fazia frio naquele lindo vale, que já foi chamado de Baixão do Periquitos.
E pra quem não sabe geografia, em vales e em baixões faz frio e as manhãs começam sob denso nevoeiro. Tenho madrinhas e comadres de fogueira (ou é de "fogo?"). Chamava- se "passar fogo", sob os seguintes dizeres, andando de mãos dadas em volta da fogueira: "São João me disse e são Pedro confirmou que você vai ser meu/minha (compadre, comadre, madrinha, padrinho), que são João mandou".
Amo as quadrilhas, que integram as danças circulares sagradas. Por uns dez anos banquei uma quadrilha em minha casa, com sanfoneiro tocando e a gente se deliciando com todas as comidas de são João, pelo puro prazer de ouvir o marcador gritar: "Anavantur (em avant tout), anarriê (em derrière), balancê (balancer), travessê de cavalheiros (travesser), travessê de damas, travessê geral"... Não havia bumba-meu-boi e nem tambor, nem de mina e nem de crioula, onde nasci.
Só fui conhecê- los em São Luís. Puro fascínio. As roupas, os sons... Era 1969. Eu morava no pensionato de dona Zinoca, que era a-lu-ci-na-da por "boi" e acompanhava o Boi de Pindaré, assim como pagava para o boi dançar uma noite em sua porta. Era maravilhoso!
Os rituais das festas juninas são panculturais e datam das ditas sociedades pagãs européias, bem antes de Cristo; conforme Bárbara Semerene, existem "em todos os tempos e em todas as partes do planeta", e são em junho porque na Europa este é o mês do solstício de verão (época em que o sol passa pela sua maior declinação boreal - dias 22 ou 23 de junho), comemorado com rituais que invocavam a fertilidade para garantir fartura e evitar catástrofes da natureza.
As fogueiras e tochas serviam para afugentar os espíritos maus, pois "o fogo representa criação, nascimento, luz original, alegria e elemento que foi divinizado pelo homem. É princípio de vida, revelação, iluminação, purificação".
Publicado em O TEMPO em 19.06.2007
FONTE: www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=248

MORTE ÀS TRADIÇÕES
Chico Cardoso
Tem-se como uma das mais usadas na nossa língua portuguesa, a palavra tradição, que segundo o dicionário significa transmissão oral de lendas, mitos, fatos, passados de geração para geração, de idade para idade.
Infelizmente, com a aparição do modernismo exagerado, até, as tradições estão desaparecendo, causando prejuízos aos nossos costumes, a cultura e educação refinada.
Um dos maiores prejuízos morais está na falta de respeito, pois os jovens, na maioria, já não respeitam os mais velhos e por conta desse ponto negativo a violência tem crescido muito, especialmente entre filhos e netos contra os pais, avós e outros mais idosos.
Antigamente, os filhos tinham por obrigação tomar a bênção aos seus ancestrais, solicitar autorização para irem às festas e para casar, pedir a bênção aos pais, avós, bisavós, padrinhos e tios. Hoje em dia tudo isso acabou e os mais velhos são tratados como entes desprezíveis na maioria das famílias. Não havendo o respeito entre as famílias, claro que a união acaba e os lares se desmoronam, provocando os desajustes que estamos vendo em crescimento gigantesco, pais matam filhos, filhos matam pais, estupros em família, enfim um desajuste incontrolável. Ninguém mais toma a benção aos mais velhos, mesmo que sejam os pais.
Em tempos idos, o sexo era tratado com grande respeito nas famílias. Hoje é coisa banal, praticado normalmente em qualquer lugar, o que é, igualmente, falta de respeito.
As tradicionais festas de São João estão desaparecendo. As fogueiras pouco existem, em especial porque o todo poderoso IBAMA proíbe cortar madeiras para manter a mais importante das tradições culturais. Nada mais bonito do que o terreiro de uma casa com uma fogueira acesa, nas noites de São João, milho verde assado nas brasas, o foguetão roncando, os balões subindo, a criançada soltando chuvinhas, traques, todo tipo de festejos. E as pessoas rodeando as fogueiras por três vezes, assumindo compromissos de compadresco: "São João disse, São Pedro confirmou, que você fosse meu compadre, que Deus mandou." O mesmo ritual acontecia com os menores tomando idosos como padrinhos e madrinhas. Os terreiros todos enfeitados, demonstrando respeito com a lenda do nascimento de João Batista, anunciada à Maria, pela prima Isabel.
O carnaval de frevo e samba está em extinção, dando lugar ao musical da Bahia, que nada tem com as nossas tradições culturais. Interessante é que existem milhares de bandas de axé, e todas são iguais, tocam as mesmas músicas, os mesmos ritmos, muitas vezes sem pé e sem cabeça. O musical que é tocado nos carnavais é o mesmo das festas de São João, do Natal, do fim de ano, festas e padroeiros, de emancipação política de município, etc...
As festas de Noite de Natal e Noite de Ano morreram. Como era bonito, no interior, o povo passeando a noite inteira cumprimentando os amigos, os jovens desfilando com namoradas e namorados, todos aguardando a Missa do Nascimento de Cristo e a Missa do Galo, meia noite.
O baião, xote e mazurca, ritmos alegres e fortes do tempo de Luiz Gonzaga hoje são abandonados e trocados por ritmos baianos, muitos até como "Vai descendo na boquinha da garrafa".
Falando-se no campo religioso, rituais expressivos foram praticamente retirados das festas da igreja, como às três horas de agonia de Cristo, na sexta feira santa, no horário das 13:00 as 15:00 horas. O jejum antes obrigatório, agora é livre, ou melhor, nem existe mais. O respeito integral dos dias santos, como quinta e sexta feira da paixão desapareceu, dando lugar às orgias desrespeitosas.
A louvação a Maria, durante o mês de maio também está quase desaparecido. As festas de Reis, em 06 de janeiro; O beijo do anel dos Bispos, o luto pela morte de parentes, a morte de Judas, o roubo das imagens de São José na esperança de chuvas, feitos nos períodos de longos verões.
As festas de casamento, refeição a granel, os noivos de joelhos diante dos pais tomando a bênção depois do ato religioso na Igreja Católica, como que pedindo autorização para assumir a responsabilidade de gerir o seu próprio lar. E os bailes noites inteiras, no dia do casamento, marcando a alegria dos chefes de família ao entregar os filhos à sociedade para uma nova vida. Hoje em dia torna-se totalmente impossível, pela violência praticada pelo ser humano.
Faz pena a gente ter que suportar o desaparecimento de tradições tão bonitas como o forró de pé de serra, os corujões nas campanhas eleitorais, iniciados a boca da noite e terminados somente no dia seguinte. O uso do chapéu de massa, os dentes de ouro, os blocos carnavalescos desfilando a pés pelas ruas da cidade, esbanjando alegria e respeito. E o corso nos três dias de carnaval, cumprindo roteiro no centro das cidades, formado por pessoas das classes sociais mais elevadas da sociedade, especialmente nas tardes, quando os foliões saudavam os pedestres que se postavam nas laterais das ruas admirando e aplaudindo o espetáculo que entrava pela noite.
Tudo isso aqui relembrado tem a ver com a palavra respeito, que está fugindo do nosso meio para dar lugar à desordem, escândalo, violência e principalmente a desunião entre as famílias, o que é mais grave nos dias de hoje.
Ainda há tempo para salvar muita coisa. Basta que tenhamos respeito para com o semelhante, que o nosso mundo reencontrará a paz, o amor e a solidariedade.
* Chico Cardoso é jornalista, escritor e advogado – Contato: chicocardoso.caldeirao@gmail.com
FONTE: /www.auniao.pb.gov.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=37890&Itemid=55

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