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Paixão por cavalos

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A paixão por cavalos é universal. Parece que está gravada no código genético do homem e também no da mulher. No homem, deve haver alguma ligação com o gonosoma Y - cavaleiro invertido - como tem o sentido da rosca, o gosto pela matemática, pela mecânica, pelas artes marciais; o cuidado com o fio de uma faca, a paixão por automóveis, pela caça, por armas, e até o modo de se agachar para pegar um objeto.
Há atitudes e gestos exclusivamente masculinos, outros femininos, preservados através dos tempos pela seleção natural porque são benéficos à perpetuação da espécie. É a velha lei de Darwin: "caracteristica útil à sobrevivência é preservada". O homem se agacha com os joelhos afastados, pernas abertas - claro exemplo de preservação de característica salutar à perpetuação da espécie uma vez que refrigerar os testículos é condição de fertilidade masculina; a mulher mantém os joelhos unidos como se fosse para proteger algum tesouro escondido em meio às pernas.
Certamente não é por coincidência que a maioria das pessoas de caráter dominante gostam de cavalos. Montar a cavalo deve ser uma imposição hormonal: a força da testosterona intronizada na cultura pelo Mito do Herói que obriga a dominar - característica do macho - e montar, a mais perfeita forma de domínio que existe. "Ser montado pela mulher" é ficar submisso. É por estar relacionada com o caráter da pessoa que essa paixão é hereditoária.
Na mulher, essa paixão por cavalos deve ter ligação com a beleza de formas ligadas ao movimento, aos simbolismos da vida: essência e fim. Essência, porque vida é movimento; fim porque a busca da beleza é a finalidade da vida. Segundo Jorge Vicente Menegussi, grande conhecedor de cavalos, o hipismo está ganhando o público feminino. Hoje há muito mais iniciantes meninas, do que há uma década. Na área do adestramento, então, esse aumento é impressionante. "E tem mais" - disse Jorge: "Mulher entende mais de cavalos do que o homem. Tem mais sensibilidade!"
Cavalos são amados por todas as raças, todos os povos, inclusive pelos que antes não o conheciam, como os peles-vermelhas da América do Norte e os índios do Pampa argentino, que acabaram por se tornar exímios cavaleiros ao usá-lo como arma de guerra, a primeira serventia de qualquer descobrimento, desde o ferro à energia atômica.
Antes de puxar arados, os cavalos levavam soldados nos seus lombos. Tracionaram bigas, quadrigas, arrastaram canhões, acompanharam féretros, marcharam em desfiles de vitórias. Cavalos, correram sobre as areias do Saara, nas pradarias norte-americanas, nas montanhas da Mongólia, na neve da Sibéria. Até no Polo Sul há pôneis eternamente congelados, mortos na malfadada expedição do Robert Scot.
Os gaúchos de antigamente, descendentes de espanhóis e lusitanos, herdaram do sangue mouro que vingou na Espanha e em Portugal por sete séculos, esta paixão pelo cavalo. "- Batalhas de luso e mouro, / que ainda carrego no sangue." (Aureliano de Figueiredo Pinto - "Aquele zaino"). Se o Przewalski é o Adão de todos os cavalos, o Árabe é o avô dos cavalos modernos, o andaluz é o pai dos cavalos crioulos, hoje apurados em raça fixa e definida, famosa pela sua resistência e rusticidade, selecionados por vários séculos.
Quando me sinto bem montado,/eu já não sou mais o mesmo... (José Hernández).



Eduardo Festugato - formado em Medicina há quase quatro décadas, fez Clínica e Cirurgia Geral durante sete anos (1965 a 1972), na cidade de Torres, interior do Rio Grande do Sul. Foi lá que ele se inspirou para escrever as crônicas sobre a Medicina de antigamente, com todas as suas angústias, sofrimentos e também com suas alegrias, que estão no livro RECORRIDA. Há 25 anos, faz Ginecologia e Obstetrícia, em Caxias do Sul. Nascido em 12.10.38, hoje tem 71 anos “bem vividos”, como gosta de frisar.
FONTE:
www.cavaloscrioulos.com.br/colunistas.php?idc=6


Blogue de sayrakidos :Vida animal, Cavalo.. 


Primeiro contato com o cavalo


“O meu primeiro contato com o cavalo foi na infância, quando morávamos com meus avós maternos. Passado mais de meio século ainda lembro o “nonno” Fonte (apelido de Senofonte Parmeggiani), suando dian-te da forja, torso nu e cabeludo apenas protegido por um avental de couro, batendo no ferro incandescente, fazendo saltar fagulhas por todos os lados – era ferreiro. O “tuin tuin” do martelo batendo no ferro ainda soa, saudoso, aos meus ouvidos. (Talvez seja por isso que eu tanto gosto do canto do sabiá-ferreiro).
O compadre do meu avô, Aparício Postali, dentista, gostava de brincar com ele declamando: “Fonte, c’o le braghe onte, / c’ol capel de paia, / Fonte canaia”. Só depois de mais de quarenta anos vim descodrir que era uma paródia de um poema italiano no qual “Fonte” substituía a palavra “conte” (conde), no original: “Conde, com as calças engraxadas, / com o chapéu de palha, / conde canalha”.
O “nonno” Fonte tinha paixão: cavalos. Com excessão do seu compadre Postali, ninguém tinha melhores cavalos do que ele, em toda a região. Na época da revolução de 1923, teve de esconder o seu plantel no interior da Terceira Légua de Caxias do Sul, para não serem “requisitados” pelos “margatos” borgistas.
A ferraria do “nonno” Fonte, rodeada de verde, estava localizada na Vila Pistola, hoje Bairro Rio Branco, um dos mais populosos da cidade. Nos fundos havia o grande galpão, de madeira, onde eram estabulados cavalos, vacas, mulas, tendo o depósito do feno na parte de cima. “Boneca” era no nome da mula. Devia ter mais de trinta anos quando a conheci, pois carregou várias vezes a minha mãe, solteira, quando ia ao moinho do tio Lucieto levar o trigo a ser moído, fabricando a farinha com que se faria o pão e as gloriosas macarronadas que ainda perfumam minhas lembranças afetivas, tão longínquas. Lembro a labuta do pessoal estocando o feno para o inverno, depois do pasto secado ao sol, usando forcados como os que aparecem nas telas de Michelangelo, nas mãos de diabos com asas de morcego. Quando o paiol estava lotado faziam grandes medas que ficavam como manchas amarelas destacadas, aqui e ali, no verdor escuro da paisagem.
Desmentindo as palavras do Herman Hesse afirmando que “Uma árvore não morre... / Espera”, já não tem mais árvores. Araucárias, ipês, angicos, canelas, canjeranas não esperaram: deram lugar para moradias, edifícios, fábricas e asfalto. O enorme mato dos Feijó, ao lado da casa do vô, foi todo derrubado e no seu lugar brotaram centenas de casas man-chando a paisagem como uma doença de pele. Até a ferraria, rodeada de pés de figos “c’o la gossa” (com a gota) e caquis de manteiga e chocolate, foi engolida pelo “progresso” sempre faminto de vidas qual insaciável Moloc consumindo criancinhas. No lugar das árvores nasceu um grande prédio de apartamentos, um orgulho para os engenheiros como troféu de caçador: um couro de onça estendido na parede, uma cabeça de cervo, empalhada; uma mão de gorila servindo de cinzeiro . Não são troféus de vida como o pintinho recém descascado, ou como o potro equilibrando-se sobre as longas patas ensaiando os primeiros passos que um dia o farão voar, mas tristes troféus de morte de um Vesúvio enfurecido sepultando Pompéias e Herculanos, cobrindo o coração com as cinzas, tristes, do luto.
Cavalos? Não existem mais. Sumiram na neblina do tempo que não volta. Onde estará a “Boneca”, o “Capitano”, a “Contadina”? E aqueles amigos que enchiam de alegria, com seus relinchos, as felizes manhãs da minha infância? E a vaca Estrela? Que fim levou a Estrela? Era tão mansa que meu avô me colocava no seu lombo quando à tardinha ia buscá-la para ser estabulada. Da vaca Estrela não sobraram nem os ossos!
Provando que a vida se repete, hoje meus netos conhecem o cavalo graças a mim. Servirá para municiá-los com valiosas lembranças da infância, que tornarão menos pesada a solidão das suas velhices. Esta será a minha herança: a boa recordação.
Adulto feliz é aquele que teve uma boa infância.”
FONTE:
www.desempenho.esp.br/geral/get_geral.cfm?id=418&sessao=2
 
O Site Lima Coelho já publicou de Eduardo Festugato:
Chapéu (23.10.2008)
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=1691
2 crônicas de Eduardo Festugato: O Coice + O Douradilho fugiu (18.09.2009)
 
www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=2868
A visita do "Marzinho" (12.10.2009)
 
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Motivos para viver (26.10.2009)
 
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Má e seu palla velho (21.04.2010)
 
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Autor(a): Eduardo Festugato


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