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SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER – I
Rangel Alves da Costa*
O sol nascente incidia sobre as nuvens do sertão, dando-lhe uma coloração avermelhada. Era o arrebol sertanejo. Poucos minutos depois as nuvens espalhavam-se e sumiam, e o clarão escaldante avançava impiedosamente sobre o cenário agreste. Mais um dia nascia. Todos aqueles que levantavam, com sua tez de cicatrizes, provavelmente deitarão mais tristes. Mas não importava, se mais um dia nascia era preciso simplesmente viver. Sonhar muitas vezes é sonho.
De uma das inúmeras portas abertas saiu um velho, pegou um litro de leite com um menino e ficou mirando o horizonte. Nada de novo, refletiu. Nos arredores, crianças corriam com olhos ainda amassados de sono: mulheres varriam e vizinhas já consumiam e espalhavam fofocas saídas do forno; homens saíam com seus apetrechos e ferramentas de trabalho, outros simplesmente ficavam por ali mesmo ciscando, remexendo numa coisa e noutra, sem ter um serviço lucrativo que fazer. Nada de novo, nem no firmamento nem debaixo do sol.
O velho era o mais antigo morador daquela ruazinha. Todos os que chegaram depois dele nada sabiam sobre o seu passado, se tinha familiares ali ou em outros lugares; nem o seu nome sabiam, era simplesmente o velho. Morava sozinho, mas pouco tempo ficava na sua acanhada vivenda. Durante todo o dia afastava-se para o centro da cidade, o que, segundo ele, servia para aproximar-se mais da realidade e das mudanças pouco ocorridas no sertão. Nos bancos das praças, nas sombras das árvores, nos botequins tomando sua casca de pau, eram os locais costumeiros, onde ele poderia sempre ser encontrado.
A idade do velho tornara-se impossível de adivinhar. Não sei quantos e tantos anos, alguém poderia dizer. E isto muito contribuiu para a história que corria entre todos que ele era o maior sábio do sertão. Ele sabia que tinha lá suas qualidades, seus conhecimentos, mas tudo fruto de uma longa experiência acumulada na palmatória do mundo sertanejo, bem como o prazer em adquirir a cada dia novas informações sobre o mundo lá fora. Fatos históricos, coisas, pessoas, sobre tudo ele sabia um pouco e tinha uma explicação inteligente, muitas vezes falando de forma bem humorada e brincalhona e outras vezes numa seriedade e tristeza de dá dó. Todos o procuravam; todos queriam ouvir suas palavras de fácil entendimento. E de tanto ouvi-lo, muitos guardaram suas lições, como se verá daqui em diante.
Com o vento soprando e espalhando sua cabeleira de pura branquidão, as palavras saíam de sua boca como a absorver a todos que o ouvia. Em tudo que dizia, no ouvinte a meditação, o acolhimento, a ira ou o sorriso. E o velho gostava de conversar, palear, como sempre dizia. E começava a contar seus "causos" e histórias.
Nascer no sertão sempre foi uma dádiva divina. Mas Deus não põe ninguém no mundo sem lhe dar algum tipo de provação ou privação. Muitos nascem em berço de mandacaru e xiquexique, por isso mesmo não tem medo de caminhar por estradas de espinhos. Esses são verdadeiramente sertanejos, prontos para desbravar veredas e vencer tocaias de sangue. Outros nascem no conforta da cama macia, e passam pela vida com calos feitos somente pelos sapatos da moda. Esses também são sertanejos, mas de um sertão de hoje, onde, muitas vezes, a privação maior é a da vergonha. Dizia o velho.
O mundo moderno apagou da cabeça do povo muitas palavras essenciais. Respeito, educação, coragem e vergonha parecem coisas estrambólicas, do outro mundo. Pais, existiam pais. O menino na capoeira da casa e o pai olhando; nos arredores mais distantes e o pai de olho; com certas amizades, nem pensar, nem ali nem em outro lugar. Se hoje não é mais assim e os filhos se amoitam onde querem, a culpa é de quem não sabe criar. Amanhã, quando o pior faz uma visita, os pais são os últimos que ficam sabendo dos estragos. Mas de certa forma já sabiam. Também, só se leva o bem do berço se tiver quem cuide desse berço, que são os pais. E mais tarde, para estes pais que não tiveram pais, tudo de ruim que os filhos fizerem nunca vai ser demais.
Para ter filhos não é preciso mais nem namorar. Pra que namorar se, como dizem, a moda é ficar, e dar uma e depois nem lembrar do rosto do outro? Tão bonzinho isso, até que pega na veia e a bomba explode e começa o deus-nos-acuda. Quando não tem jeito mesmo e a garota arruma um besta de plantão que assuma, a única certeza que se tem é que mais uma criança vai nascer e caminhar perante a irresponsabilidade dos ditos pais.
Fazer filho, pra não dizer outra coisa, é coisa séria, dizia o velho. Hoje em dia o descaramento é tanto que planejam para os filhos nascerem de cinco a seis meses antes de cada eleição municipal. Calendário espertíssimo, de gente cabreira, atilada, que conta nos dedos o tempo de dar o bote. Quando a mulher embucha, o pai fica um tempão matutando sobre o nome mais bonito para colocar na criança. O marido sentencia logo: "Mulé, seja menino ou menina, o nome tem que ser ou "ingrês" ou de artista de novela da "grobo". Quanto ao padim, num se preocupe não que vai ser um político, um candidato nessa eleição, e que seja pra ganhar".
Antigamente, nem de longe se ouvia falar nessas coisas. João, Maria, Antonio, Josefa, Pedro, Francisco, Lurdes, Sebastião, José, Severino, Joana, Marina, tudo nome simples, bonito, sem enfeite ou frescura, nome de verdade, de respeito mesmo. Nenhum pai queria saber de artista, se o artista era ele mesmo, vivendo na corda bamba, fazendo acrobacias numa imensidão de palco de sol e sofrimento para sobreviver.
SER SERTÃO: DA ARTE DE NASCER IMPRESTÁVEL – II
Rangel Alves da Costa*
Em 1871 Joaquim Catunda editou uma "Biografia do Reverendo Padre Correia", e é de passagens desta que será possível encontrar elementos que permitam conhecer como veio ao mundo, como foi estirpado da infeliz entranha a vil personagem aqui tratada, disse o velho.
Sem acrescentar ou modificar nada, para melhor ou pior, para fazer carniça ainda maior do desditoso, ou qualquer outro aspecto, o que será repassado demonstra a mais pura verdade, se é assim que se possa acreditar, sobre o nascimento e meninice desse desventurado e putrefato ser.
Começa Catunda: "Em princípio deste século (...) nasceu uma criança do sexo masculino. Era uma hora da madrugada. As trevas tornaram-se mais expessas; uivavam os cães; as aves da noite esvoaçadas apavoradas soltando longos e dolorosos pios; ouvia-se um ribombo prolongado e surdo como o de um trovão subterrâneo; o solo foi agitado por síbitas e violentas comoções e um cheiro acre de enxofre derramou-se pela casa da parturiente e circunvizinhança.
Realidade ou superstição, a parteira afirma ter visto entrar na câmara um homem de fisionomia hedionda e repelente, tomar nos braços o recém-nascido, apertá-lo amorosamente ao peito e murmurar-lhe palavras misteriosas em uma língua que não parecia da terra.
Tomada de assombro por tão estranho prodígio, a infeliz parteira persignou-se, invocando o nome da Virgem Celeste. O desconhecido desapareceu subitamente, deixando a criança sob os panos com aquelas feições sinistras e patibulares que ainda hoje, apesar da ação lenta do tempo, fazem dessa pessoa um objeto de asco e de horror".
Enquanto o velho lia o relato biográfico desse ser imprestável, exemplificando com isto outra pessoa existente ali naquela localidade, mais e mais ouvintes chegavam, e todos se comportando tão seriamente para ouvir que parecia mais a leitura de um sermão bíblico. E continuou o velho:
"Foi um ano calamitoso em toda a região: as chuvas faltaram, secaram as águas, os calores ardentes do sertão mataram as sementeiras, a fome e a peste dizimaram a população. O sol, ao desaparecer, deixava os moribundos extorcendo-se nas agonias extremas e, no outro dia, alumiava um montão de cadáveres.
Os bons sertanejos, que sempre gostaram de dar circulação aos escândalos da vida íntima, ocuparam-se muito desses fatos e os interpretaram ao sabor das superstições do tempo. Afirmavam que aquele menino fora gerado numa sexta-feira santa com o concurso de pai putativo e a crença se generalizava de que o Anticristo havia nascido encarnand0-se nele, e todos julgavam próximo o fim do mundo. 
O transeunte, ao passar em frente à sua casa, acelerava o passo, murmurando o 'Creio em Deus Padre', e apenas as sombras da noite começavam a estender-se pela cidade, seus habitantes fechavam as portas.
Como quer que fosse, esse menino, ainda sem nome, cujo nascimento assombrava a natureza, e a quem o céu, em sua cólera contra o gênero humano, concedeu vida (...), veio a ser mais tarde o libertino, o devasso, o traidor...".
Nesse passo da leitura, o velho foi interrompido por um dos assistentes: "Olha lá, olha lá quem vai passando lá adiante, acompanhado daquele monte de puxa-sacos, que na verdade não passam de fanáticos daquela coisa ruim em pessoa. Sei não, meu bom velho, mas como é que elegem um traste desse para prefeito, hein?". E o velho respondeu: "Meu filho, que fique aqui pra nós e amanhã pro mundo, mas tem muita coisa nessa história de poder desse homem que foge à nossa compreensão, por ser fruto de uma poderosíssima intercessão das forças do mal. Isso pode ter certeza". E se benzeu; e todos os presentes acompanharam o padre, na busca da proteção divina. E o velho prosseguiu:
"Gerado por graça do Satanás, segundo a crença popular, ele devia, em todo tempo, em todo curso de sua existência, mostrar-se digno de sua infernal origem. Ele devia levar cinco vezes a desonra ao seio da família, prostituir a juventude, macular pela calúnia, a reputação das pessoas conceituadas; pela intriga, acender as paixões das famílias, açular-lhes os ódios, e jubilar depois como um tigre, diante da imensa hecatombe que produziram aqueles ódios; ele devia profanar os altares, perverter as almas confiadas aos seus cuidados; trair os homens e os partidos e representar a figura viva do crápula mais abjeto e torpe e do vício mais orgulhoso e sórdido".
Era deveras impressionante a concentração daquele pequeno grupo de pessoas para ouvir o relato do velho. Ele sabia, contudo, que nem todos aqueles que estavam ali o faziam por desejo de ouvir aquela instigante história, mas sim para saber o que estava se passando e o que conversavam para, em seguida, irem para os fundos da prefeitura contar ao próprio prefeito. Não ganhavam nada com isso, mas o simples fato de serem fofoqueiros oficiais já lhes assomava como se fosse grande coisa. Não sabendo que estavam jogando o jogo do "coisa ruim".
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
Blog do autor: www.blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa
Publicado no Recanto das Letras em 22/04/2010
Código do texto: T2211818
FONTE: http://blograngel-sertao.blogspot.com/2010/04/
ser-sertao-da-arte-de-nascer-i.html
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