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Dejavu

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Há algum tempo observava aquele homem, sentado, como eu, no banco da praça. Décadas nos separavam, mas a frieza do olhar que só os que estavam cansados de sonhar nos era comum.

A boca daquele homem tinha se transformado num fio único de amargura, os sulcos no rosto traçavam sua trajetória de sofrimento, eu quase podia ler as linhas, percorrer sua alma. E ele continuava estático, nem as buzinas dos carros, nem o ritmo frenético da cidade movia nele alguma expressão sequer. Os cabelos brancos mostravam o tempo que o tempo leva pra tirar a cor dos sonhos. Estremeci. Um vento frio sussurrou cruelmente que era o destino quem dava as cartas. Desviei pela primeira vez o olhar daquele homem, passei a observar uma formiga. Ela carregava uma folha cinco vezes maior que seu tamanho... sem dó ou piedade, num reflexo pisei a formiga com meu tênis sujo de rua, surrado de andar em caminhos tortos... aquilo me deu um imenso prazer, sorri lúgubre e disse baixinho: “Aprende a cantar otária, aprende a viver...”, lições que nunca apliquei a mim, que há muito desistira de viver!

Voltei meus olhos ao meu objeto de análise. Ele estava de pé. Pela primeira vez vi um lampejo de vida naquele corpo até então imóvel. Acompanhei seu olhar, era uma menina que ela observava; esguia, de longos cabelos cacheados cor de mel caídos nos ombros displicentes. O velho homem há pouco cansado esboçou um semi-sorriso incrédulo, apurando a visão e balançando a cabeça como se quisesse fazer sumir aquela imagem, fantasma, lembrança, ou seja lá o que fosse. No que a menina passa por ele e sorri, talvez porque percebesse a observação insistente. O sol do cair da tarde refletiu a brancura de seus dentes ofuscando o sonho que inundava os olhos do velho. Ajeitei-me no banco da praça, já taquicardia, dispostas a fazer julgamentos precipitados enquanto ele sentava desiludido acompanhando o trajeto da menina com os olhos novamente frios. Mas logo torna a se levantar, desta vez surpreso, eufórico, vivo, e todos os seus músculos gritavam isso. A menina aproximou-se de seu destino: uma senhora idosa, com um tailler clássico tom pastel, a boca curvada para baixo, levemente colorida de batom cor de rosa, muito séria, meio morta. Comecei a observar a cena. Foi quando a senhora deu conta da presença do homem que a observava, pensei ter visto um fio quase invisível que os puxava um para o outro. Ela levou as mãos à boca, igualmente surpresa. Notei que ela também parecia agora mais viva, embora comedida. Ela impediu com os gestos a intenção do senhor se aproximar. A menina, que presumi ser sua neta, saiu de perto dela, sumiu, não vi mais. As folhas secas começavam a cair das árvores, que eram varridas pelo vento num ballet insano. Eu estava totalmente mergulhada na energia deles, na corrente de sentimentos que um transmitia para o outro, quase podia ler seus pensamentos. Como uma espectadora de um reallity show sem pé nem cabeça, quis unir os dois, chorar, sorrir e entender o que estava acontecendo de fato, pois eram só vãs suposições que sustentavam minha curiosidade patológica. Ele decidiu chegar perto dela. Observei as feições da senhora e vi a menina de ainda pouco, aquela que o velho observava incrédulo...

Alucinação, dejavù compartilhado, foi a minha vez de balançar a cabeça. Há alguns passos um do outro, e meu coração na boca, vi os seus sorrisos jovens, seus corpos jovens, como numa viagem de volta ao tempo, do tempo em que eles acreditavam no amor. E eu era cúmplice, espectadora daquele momento surreal, e via tudo num filme em p&b. estava certa de estar tendo alguma alucinação. Via seus olhos com sonhos, nos olhos, as mãos dadas. Não, era de fato real...andei na direção deles lentamente, fui colhendo frases no vento: “O tempo não passa pra você...”; em cada passo uma frase, e a minha cabeça começou a girar; “Porque só agora...”’; era cada vez mais bizarro e meus pés parece que viraram chumbo; e passei pelos dois e eles não me viram; “É porque esta é a hora certa!”, me afastei da praça, quando percebi já estava correndo, fugindo de toda aquela felicidade, saindo daquele película antiga.

Parei em frente a uma loja, pensei cair em mim, quando vi eu reflexo na vitrine: eu era uma velha, amargurada, me assustei, associei estranho acontecimento da praça, era como se a minha juventude tivesse sido sugada pra quem dela de fato merecesse. E toquei meu corpo, e era o meu, ainda jovem, sem sonhos ou vida, essa era eu mesma... cheguei no quarto alugado em que eu dormia, no centro da cidade. Respirei fundo o cheiro de mofo e mergulhei na escuridão. Topei com uma garrafa de vodka, ainda lacrada, sentei no chão, sentia meu corpo dormente, peguei a bolsa e tirei uma caixa de tranqüilizante. Tomei compulsivamente, um, dois, três, todos de uma vez, em seguida tomei a vodka, num gole, até a última gota, então dormi, agora em paz.



Autor(a): Anne Glauce Freire


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