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Baile da Corte abriu o carnaval em São Luís-2008
Em noite de muita beleza, simpatia e samba no pé, o tradicional Baile da Corte, realizado dia 19 de janeiro, sábado, no Circo Cultural da Cidade, coroou Herberth Matos e Marlete Soares como Rei Momo e Rainha do carnaval.
O baile, promovido e organizado pela Fundação Municipal de Cultura, deu a largada na programação oficial da Prefeitura de São Luís para o carnaval de 2008, que inclui ainda os Bailes dos Artistas (16) e o Baile Infantil do Erê (27) no Circo da Cidade e o desfile das Escolas de Samba e de blocos tradicionais na Passarela do Samba. Na mesma noite também foram escolhidas a 1ª e 2ª princesa do carnaval, respectivamente, Vanda Sarges e Kamyla Cristhina.
"O baile é uma tradição de origem portuguesa e tem a função de dar mais brilho ao carnaval, autoridade ao Rei Momo e a Rainha, além de ser uma celebração para comunidade", afirmou o presidente da Fundação Municipal de Cultura, Adirson Veloso.
O tema escolhido pela Fundação para o carnaval deste ano "Os Tambores da Ilha na Terra da Encantaria" é uma homenagem à cultura afro-descendente. Nesse sentido, o baile foi aberto com o desfile da cantora e compositora negra Patativa, 70, nascida na cidade de Pedreiras, terra de João do Vale, mas que teve a sua formação cultural esculpida na Madre Deus, bairro que é berço de inúmeros compositores e artistas populares de São Luís.
Após o desfile de Patativa, teve início a eleição da corte e, pela quarta vez consecutiva, Herberth Matos colocou a coroa de Momo na cabeça. A primeira vez que ele concorreu foi em 2005. Com 32 anos de idade, o Rei Momo reeleito pesa 160 quilos distribuídos em 1,70 m de altura, o que não impede que ele demonstre muito samba no pé. "Comecei por brincadeira e depois vi que é muito bacana ser rei no carnaval", comentou.
No quesito beleza, Marlete Soares desbancou as outras dez candidatas da noite. Ao todo, 30 mulheres concorreram, mas apenas 12 foram pré-selecionadas para o Baile da Corte. Marlete mora no bairro São Raimundo, tem 1,70 m de altura, 23 anos de idade, e pesa 57 quilos. Ao contrário do Rei, a Rainha não pode concorrer à reeleição.
Daqui pra frente, Herbeth e Marlete irão a todos os bailes oficiais promovidos tanto pela Prefeitura de São Luís, quanto pelo Governo do Estado. Além da coroa e do cetro, cada um recebeu R$ 2 mil de prêmio. Já as princesas receberam R$ 1,5 mil, faixa e tiara.
A animação do Baile da Corte ficou a cargo do grupo Amigos do Samba e da bateria da Escola de Samba Unidos de Fátima.
FONTE: Secom
O Carnaval em São Luís
"O Carnaval de rua de São Luís é animado por diversas brincadeiras populares. Na folia, tomam conta das ruas os fofões, as tribos de índios, os blocos-de-sujos, os blocos tradicionais, a Casinha da Roça, além das escolas de samba.
O fofão é uma figura característica do carnaval maranhense, que se apresenta, usando macacão de chita, estampada de cores vivas, complementado por uma estranha e fantástica máscara. Isoladamente, ou em grupos, os fofões se divertem, assustando e provocando os outros brincantes.
Essa festa de cores, ritmos e diversão acontece em circuitos de ruas e bairros, destacando-se os circuitos de São Pantaleão e da Madre Deus - importantes pólos de cultura popular.
Para quem prefere o Carnaval de trios elétricos, a Avenida Litorânea oferece muita animação, tendo como cenário o bonito visual das praias. Folia que se repete, em outubro, quando acontece o Marafolia, a micareta de São Luís.
Por tradição, a folia diária deve terminar com um delicioso caldo de ovos ou de mariscos, ou uma peixada (de preferência à beira do mar) para repor as energias e evitar a ressaca.
Para encerrar o período de folia, há o Carnaval do Lava-pratos, no domingo seguinte, na vizinha cidade de São José de Ribamar."
FONTE: www.ma.gov.br/2007/12/13/Pagina29.htm
CARNAVAL DO MARANHÃO - UMA TRADIÇÃO DE DOIS SÉCULOS
Ananias Alves Martins
O carnaval Maranhense é uma das mais antigas tradições festivas que se tem conhecimento no país, e até os anos 70 desde século sustentava o título de terceiro carnaval brasileiro, após o do Rio de Janeiro e Pernambuco, consequência da variedade de manifestações e da grande convergência de foliões.
Principiou como carnaval de rua, inaugurado pelos negros, que fugindo das agruras da escravidão, reproduziam antigas brincadeiras portuguesas, ou as suas próprias, trazidas do continente africano, o que faziam, num primeiro momento, em épocas de festas religiosas e colheitas, mas que com o tempo convergiram para a quadra carnavalesca.
O FANDANGO e a CHEGANÇA eram brincadeiras de natal; o CONGO saía na festa de Rosário em janeiro e a CANINHA VERDE, era em junho, época da colheita portuguesa. Adaptadas com uma encenação, característica brasileira, fruto do contato com o teatro catequético dos jesuítas, deu a mais impressionante característica dos nossos carnavais primordiais: a de "carnavais de autos".
Fala-se aqui de um tempo em que os homens livres e proprietários pouco se manifestavam nas ruas, sendo o carnaval do ENTRUDO a grande exceção. nele ricos, pobres e sacerdotes se misturavam para jogar água e pó nos transeuntes. Existe rico registro do entrudo do Maranhão, herdado dos portugueses, onde os escravos acompanhavam seus senhores com baldes d’água, para lhes servir de munição.
O CONGO era um ritual narrativo das antigas epopéias Angola-congolesas, com temas de cerimônia de coroamento de monarcas do CONGO e a luta dessas monarquias contra outras, lutas contra o invasor, etc., que assimilou técnicas dramáticas dos antigos autos africanos e se manifestou na Maranhão em passeatas carnavalescas, como as que percorriam o Caminho Grande, no século passado, para terminar no Centro da Cidade.
Quanto à CANINHA VERDE, trata-se da uma festa popular de origem minhota, criada em Portugal para atrair moças e rapazes para a colheita. Classicamente é uma brincadeira de roda, envolvendo homens e mulheres, divididos em sexos e seções que se defrontam, cantando e permutando lugares. No Brasil ganhou um auto de casamento que se desenrola em torno do litígio entre os noivos e os pais da noiva, além de novos nomes para os protagonistas. No Maranhão se tornou desde cedo manifestação urbana, sendo dançada além de São Luís, nas cidades do Vale do Itapecuru.
A CHEGANÇA era dançada em Portugal, como uma reprodução cênica das lutas contra os Mouros, mas apenas como dança e indumentária. A dança era considerada lasciva, "ancas contra ancas", peneirando-se "coxa contra coxa" e chegou a ser proibida. No entanto, no Maranhão aparecia com um ciclo de autos, cada dia entrosando-se no episódio central outro episódio ou jornada, se constituindo na CHEGANÇA mais completa que Antonio Lopes havia conhecido. Tinha a Nau Catarineta, o episódio do Mouro, o do imediato, o do piloto, o do mestre e o da marujada.
Em alguns Estados do Brasil é conhecido como Chegança apenas um desses episódios, ou mesmo o FANDANGO, constituído apenas de uma dança com um auto de disputa de espada entre "povos rivais". Os escravos e ex-escravos do Maranhão dançavam-na vestidos de calções de seda curtos, gibão e manto.
Na segunda metade do século XIX o cotidiano da vida citadina dos negros de São Luís, forjará um novo tipo festivo, o brincante do BARALHO, que chegou a ser um tipo social muito relacionado às mocambas.
No carnaval os negros saíam pintalgados de pó, carregando sombrinhas velhas, que não se usavam mais, em passeatas carnavalescas, acompanhados de reco-recos, pandeiros e violões e canções próprias. A isso chamavam BARALHO.
É também na segunda metade do século passado que os bailes se consagraram junto à elite local, se tornando a alternativa festiva/carnavalesca dos que não se misturavam com o povo escravo, ex-escravos e homens livres pobres. Neles se dançava a Polka, de origem boêmia (ex-Tchecoslováquia), o Schottisch, de provável origem húngara e a Quadrilha francesa, além de muita Valsa.
Como apetrechos para os bailes era comum o uso de confete francês, bisnagas perfumadas, pó de "ouro" e "prata", e máscaras "finas", importadas. Não faltavam, no entanto, máscaras de fabricação local, que se destacavam pelo aspecto temático de suas formas: o governo; o comércio; o povo; a lavoura, etc.
Os bailes ocorriam em amplos casarões da cidade e no Teatro União (hoje Artur Azevedo), com restrição ao acesso de famílias com pouco dinheiro, daí derivarem deles vários bailes, mais populares, muito concorridos já no final do século XIX.
Paralelo à fluência dos bailes, o carnaval de rua se delineava, com grande adesão aos cordões que se consagrariam nos carnavais do século XX, delineando o seu principal perfil até meado dos anos 60.
Aos poucos vão se enchendo as ruas de Dominós, Cruz-diabos, Colombinas, Arlequins, Pierrôs, Fofões, ursos, macacos e outros, cada qual fazendo os seus passes, ao comando de um apito.
Por volta de 1935, o cenário do carnaval maranhense comportava tanta diversidade quanto podia imaginar a criatividade dos foliões. Enquanto dominós, pierrôs e cruz-diabos saiam em seus cordões, o urso acompanhado de um pequeno conjunto musical, fazia passeatas carnavalescas, com apresentações teatrais nas casas e nas ruas, com seu elenco de domador, macaco e cachorro.
Os Corsos de iniciativa de comerciantes, grupos de famílias e casas de mulheres, davam espetáculos com as batalhas de confete e serpentinas, que ficaram famosas por deixarem as ruas completamente cobertas de papel.
A Caninha Verde, A Chegança, o Fandango e o Baralho, remanescentes da fase anterior do carnaval, se reuniam no Largo do Quartel (hoje Praça Deodoro) e junto com outras brincadeiras faziam uma farra "infernal", como ficou na impressão dos que presenciaram. Sem deixar de falar na continuidade do tradicional Entrudo, que entusiasmava a todos.
Ainda não satisfeitos com tantas manifestações momescas, os maranhenses inventaram a Casinha da Roça, com um Tambor de Crioula dentro e acompanhamento de tipos rurais - roceiros, índios, rendeiras, etc. -, além de comidas típicas da cozinha maranhense, como o peixe frito e o cuxá.
Criaram também os "ASSALTOS", que eram festas surpresa nas casas dos amigos, onde se improvisavam bailes nas salas, com direito a bebidas e comidas que levavam os foliões. Às vezes, o mesmo grupo, chegava a fazer vários "assaltos" em um mesmo dia, ou ficavam até a madrugada quando o ambiente era acolhedor.
Entretanto, de todos os anos que se seguiram, como áureos do carnaval maranhense, o que seus protagonistas mais gostam de lembrar são tempos dos Bailes de Máscaras, que ocorriam em São Luís.
O segredo do sucesso consistia nas fantasias mascaradas que só as mulheres usavam, ocultando totalmente a sua identidade, e que funcionava como subterfúgio de liberação, em uma sociedade com diversos tabus. O romance corria solto nos bailes, sem que o homem soubesse a identidade de sua parceira, até que ela desejasse lhe revelar. As histórias hilárias sobre revelações de identidade também são muitas.
Ainda na década de 30, o samba começa a se popularizar no Maranhão, e a somar a já rica festa momesca existente, inspirando a formação de Turmas de Samba e Blocos Carnavalescos, que se formavam a partir de grupos de amigos, passando a se manifestar nas ruas com tambores e cavaquinhos, em uma época em que nem se falava em Escolas de Samba.
Somente nos últimos anos de 40 os blocos se tornarão verdadeiramente influentes nas festas carnavalescas, sendo das principais atrações dos clubes carnavalescos e deslocando gradativamente o destaque antes dado às brincadeiras tradicionais. Mas a princípio, Fuzileiros da Fuzarca, Flor do Samba, Turma do Quinto e Turma da Mangueira e Vira-lata, gozam da mesma categoria, a de Blocos.
No início dos anos 50 já se vê registrado a distinção que se faz entre Blocos e Escolas de Samba - esta como categoria nova no carnaval que ali se fazia - desfilando paralelamente aos Corsos e aos Carros Alegóricos, em concursos que a Prefeitura de São Luís passou a patrocinar.
Enquanto os blocos tinham enraizamento principal na área central da cidade, os grupos que se tornaram Escolas, fluíram do meio social dos bairros, pela própria exigência de contingente humano de que necessitam.
São as Escolas de Samba que definirão nos anos 70 e 80 a característica de "carnaval de Samba" que a festa momesca passou a ter no Maranhão, na medida que se tornam a principal referência, chegando a gozar, naqueles anos, de grande prestígio e da adesão de uma parte da classe média, que não aderira às noitadas nos clubes.
Os Blocos nunca desapareceram do carnaval maranhense e a eles se juntaram as charangas e as bandas de rua, que fizeram com sucesso as temporadas pré-carnavalescas e carnavalescas, mas que perderam atualmente espaço para os Trios Elétricos.
Enfim, é difícil concluir quando deixamos quase tudo a meio termo, pelas exigências do formato desse documento, mas devo sumariar o que aqui me propus, que foi dar uma visão geral do que tem sido o carnaval maranhense em suas fases.
Temos, a princípio, um "Carnaval Colonial", realizado pelos negros com brincadeiras adaptadas do folclore africano e português, e o Entrudo, é a manifestação comum a todos. Na segunda metade do século XIX se firmam os Bailes, surge o Baralho e aparecem os Cordões. No início do século XX começam a desaparecer os folguedos coloniais; os Cordões, o Corso e outras formas relatadas passam a predominar, ao que podemos caracterizar genericamente de "Carnavais dos Cordões". O baralho desaparece antes da metade do século e os bailes de máscaras são proibidos em 1965. O Samba firmado nos anos 30, ganha destaque no final dos anos 40 e, dos 70 em diante, modela o carnaval como um "Carnaval de Samba", através da fórmula Escolas de Samba.
Fala-se hoje que já entramos no "Carnaval do Axé-Music", mas diante da sobrevivência de manifestações tradicionais do carnaval maranhense, é apenas uma afirmação precoce.
FONTE: COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE FEVEREIRO DE 1996, BOLETIM ON-LINE Nº 04
www.cmfolclore.ufma.br
cmfolclore@ufma.br www.cmfolclore.ufma.br/Htmls/Boletim%2004.htm
ANTIGOS CARNAVAIS
Carlos de Lima
A cidade era pequena, ia da Praia Grande às velhas quintas do Caminho Grande, do Cemitério do Gavião ao largo dos Remédios. Cresceu, dizem que se "civilizou", dispersou-se, tornou-se violenta, perigosa, cheia de gente desconhecida e mal educada, tão diferente daquela que conheci, quando se podia dormir de janelas abertas, no tempo do calor, e a porta da rua ficava encostada esperando que o último noctívago viesse cerrá-la... Tinha razão a velha Ludovina quando dizia a minha avó: "Quá, Sinhá Donana, esses amilhoramento são apioramento!"
É natural que o Carnaval também fosse diferente do de hoje. Nos subúrbios, pela Vila Passos, Baixinha, Canto da Fabril, Alto da Carneira, Madre-Deus, desfilavam as "brincadeiras" os cordões de bichos: guarás, carneiros, águias, erguidos na ponta das varas, emblemas dos grupos. Moças e rapazes (e velhos também) iam uniformizados (calças lisas e blusas coloridas; o pessoal da Madre-Deus de branco e com bonés vermelhos), todos em fila, um atrás do outro, a fazer "cobrinhas" pelas ruas, cantando alegremente, o apito do "comandante" marcando a cadência dos passos, fri, fri ... fri, fri, fri! À frente, a mocinha porta-bandeira revoluteava seu estandarte bordado com o nome da brincadeira. Entravam nas casas, cantavam, dançavam, faziam evoluções e recitavam versos de louvor ao dono da casa e à sua família.
Mal sumiam na esquina próxima e lá surgia o Urso, pesadão na sua roupa de estopa desfiada, a máscara horrível, mostrando a dentuça ameaçadora. Andava num passo malandro e bamboleante, preso à corrente que o Dono empunhava, fantasiado de domador. Ao lado deles um menino fazia de Macaco, a roupa justa também de estopa, a máscara simiesca completando a figura. Exibiam sua pantomina: o Urso, a princípio violento e feroz, ameaçando a assistência, aos poucos se acalmava e, obedecendo às ordens , sacudia-se todo e requebrava no compasso do samba cantado pelo Dono e marcado no pandeiro. Os espectadores já eram em grande número, fazendo roda, e o Urso dava cambalhotas, mostrando as habilidades, aparando no ar o pandeiro que o amo lhe jogava. Deitado no chão, de pernas para o ar, equilibrava o pandeiro no focinho, na ponta do pé, no meio do peito cabeludo.
Enquanto recebia os aplausos, o macaco corria à roda arrecadando o cachê.
O nosso urso é remanescente dos grupos de saltimbancos e artistas anônimos que, na Idade Média, vagavam de castelo em castelo. Pelotiqueiros, acrobatas, menestréis cantores e declamadores, animais amestrados, anões e até entes disformes, raros exemplos da teratologia humana, exibiam-se nos pátios dos castelos, ou nas pequenas praças dos burgos. O colonizador trouxe consigo para o Brasil as tradições européias, as festas populares, e do costume medieval restou para nós a reminiscência do urso amestrado, nesta representação do Carnaval.
Nos três dias de festa, o Carnaval concentrava-se no largo do Quartel (praça Deodoro) e se espraiava pela rua dos Remédios até à praça Gonçalves Dias. As famílias punham cadeiras nas calçadas para assistir ao desfile dos foliões, ora sozinhos, ora em blocos, e (o ponto alto) a passagem do Corso. Alguns desses brincantes solitários faziam crítica política, ou social; outro, de mau gosto, trazia nas mãos um penico de ágata, de onde tirava pedaços escuros de doce de banana, que comia prazerosamente, recebendo censuras ou risos e causando náuseas aos mais impressionáveis. O Corso era uma festa à parte, os caminhões transformados em carros alegóricos,: um elefante gordo, uma girafa de pescoço comprido, moinho de vento etc., certa vez, até mesmo um avião, de asas, é verdade, absurdamente curtas!
Visualize o leitor a rua estreita, cheia de gente, as calçadas tomadas pelos que assistem sentados, as janelas repletas de cabeças curiosas, gente que trepa em cadeiras para poder ver por sobre as da frente, e os carros passando para cima e para baixo. Parece-nos hoje impossível que nessa via apertada houvesse mão e contramão, os veículos circulando entre blocos, cordões, pedestres, sem um acidente, sem uma briga, todos simplesmente a divertir-se e a cantar alegremente, as canções carnavalescas:
"A vitória vai se tua, tua, tua,
moreninha prosa... " ou
"Lourinha, lourinha,
dos olhos claros de cristal,
desta vez, em vez da moreninha,
serás a rainha deste Carnaval".
Lembro-me do caminhão das moças da Zona (O Carnaval fazia esta confraternização, todos empenhados na folia, para glória de Momo!), as saias vastas e vistosas para fora dos taipais, todas "holandesas", algumas bem escuras ostentando grossas e longas tranças louras!; o elefante cinzento balançando a cabeçorra, à direita e à esquerda, cumprimentando a assistência; a torre Eifel, toda iluminada, e que parecia enorme aos meus olhos de criança.
A rua dos Remédios era uma só animação, as serpentinas cruzando-se no ar, das janelas para os carros, dos carros para as janelas, os confetes agitando-se na luz ainda forte da tarde e fazendo grandes montes nas sarjetas. Nossa maior diversão era correr atrás das serpentinas não de todo desenroladas e apanhar do chão, as mancheias, confetes para atirá-los uns nos outros.
No ano de 1935, fomos de muda para uma morada inteira, no largo dos Remédios. De muda, sim, com redes, mesas, cadeiras, comida, para passar o Carnaval. Meu tio Pedro Vasconcelos era sócio da firma Martins & Irmão, dona da casa, e como estava desalugada, ele conseguiu permissão para que nós a ocupássemos durante a festa. Assim fomos todos, ele com a esposa, os seis filhos e outros tantos sobrinhos. Que farra fizemos durante uma semana! Aliás, neste ano, pela primeira vês, com 15 anos, compareci a um baile de Carnaval. No Casino Maranhense. Mas esta já é outra estória, os bailes, e fica para depois.
Este era o Carnaval de antigamente: alegre, tranqüilo, inocente, e feliz!
FONTE: COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE FEVEREIRO DE 1996, BOLETIM ON-LINE Nº 04
www.cmfolclore.ufma.br
cmfolclore@ufma.br www.cmfolclore.ufma.br/Htmls/Boletim%2004.htm
CARNAVAL BACANA
Jozimar Mendes e Manoel Marinho
Seção de Pesquisa do CCPDVF
"Evidentemente que carnaval maranhense, o autêntico, o tradicional, está no leito, agonia do aniquilamento".
Domingos Vieira Filho - 1971
Fazendo-se uma comparação do Carnaval maranhense do passado e o de hoje, nota-se claramente que há uma grande diferença. Em tempos passados existia uma variedade de brincadeiras que tornavam o nosso carnaval mais autêntico. Além disso, era um Carnaval apresentado a toda população sem compromissos com horário e passarela. A preocupação era brincar, mostrar sua euforia e contagiar os assistentes.
Um exemplo significativo dessa variedade de brincadeiras existentes no carnaval maranhense pode ser percebido no bairro da Madre-Deus. Lá o samba sempre se fez presente, mesmo que de improviso, feito pelos boêmios que ficavam cantando e tocando até de manhã, tendo como companhia uma garrafa de cachaça.
Era comum organizarem-se na Madre-Deus vários tipos de brincadeiras que durante o período momesco percorriam outros bairros levando alegria e animação, fazendo com que o Carnaval de outrora fosse mais espontâneo. Entre as que ali existiam, podemos mencionar o entrudo, o cruz diabo, a caninha verde, a chegança, o corso, o dominó, os cordões de urso, os fofões, os blocos organizados e escolas de samba.
Convém destacar dentre as brincadeiras o baralho, organizado pelo finado mestre Zé Garapé, que segundo Augusto Aranha tornou-se um dos mais célebres de São Luís. Formado na sua maioria por negros, essa espécie de bloco de sujo reunia na verdade pessoas das mais variadas camadas sociais, num clima de descontração e entusiasmo, independentemente de posição econômica, social e intelectual.
Ainda entre os divertimentos momescos da Madre-Deus, merecem também destaque o bloco tradicional "Os Fuzileiros da Fuzarca" e a Sociedade Recreativa Turma, do Quinto, ambos ainda existentes. O bloco Fuzileiros da Fuzarca foi fundado em fevereiro de 1936, por componentes como: Cristóvão Colombo, Sandoval, Astrogildo, Mané Caju, Pedro Pantaleão, Carlos Moreira, José João, Rosendo Amaral, entre outros. Este ainda apresenta as mesmas características desde sua fundação, tais como: a indumentária (composta por camisa nas cores preto e branco, calça preta com duas listas brancas de cada lado, sapato preto e chapéu preto que leva uma estrela branca com dois FF pretos e ainda o inconfundível batuque ritmado, com o auxílio de instrumentos cobertos com couro. Seu nome deve-se a um filme norte-americano exibido aqui no Maranhão, no ano de sua fundação, intitulado Fuzileiros da Fuzarca. Quanto à Sociedade Recreativa Cultural Escola de Samba Turma do Quinto, teve sua origem a partir do bloco Turma do Quinto, fundado, em 1940, por Lino Souza, Inocêncio, Zé Caboquinho, Luiz de França e mais vinte e um sambistas madredivinos, sendo o seu nome escolhido em homenagem ao Quinto Batalhão de Caçadores, que localizava-se na Madre Deus, onde atualmente funciona o Hospital Geral.
Com o passar do tempo a Escola cresceu, tornou-se campeã e uma das mais queridas da população ludovicense. Porém o brilhantismo, o fascínio, o entusiasmo foram-se, com o seu crescimento. Evidencia-se, portanto, que nesse confronto do ontem com o hoje, resta-nos a certeza de que o Carnaval maranhense, considerado na época o terceiro melhor do Brasil, deixou muita gente saudosa, levando-nos a concordar com o compositor Luiz de França quando dizia que realmente tratava-se de um "Carnaval Bacana".
FONTE: COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE
FEVEREIRO DE 1996, BOLETIM ON-LINE Nº 04
www.cmfolclore.ufma.br
cmfolclore@ufma.br
www.cmfolclore.ufma.br/Htmls/Boletim%2004.htm
Leitura recomendada:
Especial "CARNAVAL MARANHENSE"
COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE
FEVEREIRO DE 1996
BOLETIM ON-LINE Nº 04
SUMÁRIO
• EDITORIAL
Carnaval Maranhense
• CARNAVAL DO MARANHÃO UMA TRADIÇÃO DE DOIS SÉCULOS
Ananias Alves Martins
• ANTIGOS CARNAVAIS
Carlos de Lima
• ARTESANATO DO CARNAVAL
Zelinda Machado de Castro e Lima
• FOLIAS DE MÁSCARAS
Sandra Maria Nascimento Sousa
• CARNAVAL BACANA
Josimar Mendes e Manoel MariNho
• QUARTA-FEIRA DE CINZAS NOS TERREIROS DE MINA – ARRAMBAM
Sergio Figueiredo Ferretti
• NOTÍCIAS
Urso caprichoso
VIII Congresso Brasileiro de Folclore
O sebrae vai à rua
Queimação das Palinhas
Os caretas de Caxias
Festejo de Nossa Senhora de Belém
• PERFIL POPULAR - CRISTÓVÃO COLOMBO
Márcia Mendes
COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE - CMF
DIRETORIA:
Presidente: Sérgio Figueiredo Ferretti
Vice-presidente: Carlos Orlando de Lima
Secretária: Izaurina Maria de Azevedo Nunes
Tesoureira: Maria Michol Pinho de Carvalho
CORRESPONDÊNCIA:
CENTRO DE CULTURA POPULAR DOMINGOS VIEIRA FILHO
Rua do Giz (28 de Julho), 205/221 – Praia Grande.
CEP 65.075–680 – São Luís – Maranhão
Fone: (098) 3231-1557 / 3231 9361
As opiniões publicadas em artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores, não comprometendo a CMF.
CONSELHO EDITORIAL:
Sérgio Figueiredo Ferretti
Carlos Orlando de Lima
Izaurina Maria de Azevedo Nunes
Maria Michol Pinho de Carvalho
Mundicarmo Maria Rocha Ferretti
Zelinda de Castro Lima
Roza Santos
EDIÇÃO:
Izaurina Maria de Azevedo Nunes
VERSÃO PARA A INTERNET:
Oscar Adelino Costa Neto
ENDEREÇO ELETRÔNICO:
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E-MAIL: cmfolclore@ufma.br
EDITORIAL: CARNAVAL MARANHENSE
A COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE em seu plano de atividades para 1996, programou editar três números de seu BOLETIM DE FOLCLORE, o 04, em fevereiro sobre Carnaval Maranhense, o 05 em junho, sobre São João e o 06 sobre o Natal. Programamos ainda editar um número da REVISTA MARANHENSE DE FOLCLORE e realizar um Seminário de Estudos sobre Folclore e Cultura Popular. Esperamos ter fôlego e conseguir apoio para estas e outras iniciativas.
O êxito da experiência do Boletim 03, dedicado ao TAMBOR DE CRIOULA, incentivou-nos a organizar números temáticos dedicados a um único assunto, que pode ser melhor analisado em múltiplos enfoques. Embora tenhamos a certeza de que não esgotamos o tema e de que incorremos no risco de repetições, inevitáveis em todo trabalho coletivo, acreditamos que o esforço de reflexão conjunta sobre um aspecto da cultura popular do Maranhão ajuda-nos conseguir uma abordagem mais ampla.
Como estamos em fevereiro, o tema do Carnaval se impõe. Solicitamos aos colaboradores deste número, evocarem aspectos dos Carnavais antigos. Convidamos interessados em compreender o Carnaval. Não pudemos publicar neste número todo o material recebido. Alguns trabalhos ficarão para próximo BOLETIM ou para a futura REVISTA MARANHENSE DE FOLCLORE. Apesar da preocupação com a objetividade, o saudosismo não pode deixar de estar presente quando se evoca o passado, que é quase sempre mais risonho e franco. Embora evidencie-se a perda inevitável de muitas tradições, a criatividade popular e a especificidade da cultura regional, não desaparecem como muitas vezes se considera apressadamente. Esperamos com este número continuar modestamente contribuindo para escrever e pensar sobre nossos costumes.
O tambor de crioula é sobretudo uma dança de divertimento, mas costuma ser realizada em homenagem a São Benedito, padroeiro dos negros do Maranhão, que representa o vodum daomeano Toi Averequete. Em muitos terreiros de tambor de mina (nome mais comum dado à religião de origem africana no Norte do Brasil), há entidades religiosas que gostam de festas de tambor de crioula. Estas festas costumam ser realizadas ao longo de todo o ano, inclusive no Carnaval.Em São Luís há dezenas de grupos de tambor de crioula e no interior existem variações regionais, nos ritmos, na maneira de tocar, nos cânticos e nas danças. Estas variações são denominadas de "sotaques", como no Bumba-Meu-Boi. Em algumas regiões é comum homens acompanharem a dança, em roda lateral, com pernadas ou rasteiras. Popularmente afirma-se que "o tambor de crioula é afinado a fogo, tocado a murro e dançado a coice".
Tendo em vista a beleza e originalidade desta manifestação cultural A Comissão Maranhense de Folclore resolveu prepara um número especial dedicado ao tambor de crioula. Convidamos alguns membros da C. M. F., amigos e colaboradores para redigir pequenos artigos. Se em alguns deles encontramos repetições de certas idéias, são derivadas do interesse de cada um em expor, em poucas palavras, um pouco do que conhece e do interesse em falar das coisas interessantes do Maranhão, cuja capital é também considerada por alguns como sendo a última das ilhas do Caribe.
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